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As 3 câmaras alagadas sob a pirâmide de Nastasen

Em Nuri, no Sudão, o túmulo de um rei de Kush ficou debaixo do lençol de água, e a escavação de 2019 virou mergulho

Pirâmide de arenito no deserto, com escada que desce à água

O cemitério real de Nuri, no norte do Sudão

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: o túmulo alagado de Nastasen.

Local: Nuri, Sudão.

Anomalia: câmaras sob a água.

Nuri fica no norte do Sudão, a poucos quilômetros do Nilo, numa das faixas mais secas do Saara. Em 2019, a equipe do arqueólogo americano Pearce Paul Creasman vestiu roupa de mergulho para entrar no túmulo do rei Nastasen, sepultado ali por volta de 315 antes de Cristo, segundo a reportagem da National Geographic publicada em 2019.

Em cima, o deserto. Embaixo, a água.

A pirâmide de Nastasen faz parte do cemitério real de Nuri, onde os governantes de Kush (o reino núbio que dominou o vale do Nilo ao sul do Egito) foram enterrados por quase quatro séculos. De longe, ela parece um monte de arenito gasto pelo vento.

A entrada do túmulo não fica dentro da pirâmide. Fica alguns metros ao lado, numa escada cavada na rocha que desce até as câmaras do rei. Com o tempo, a areia encheu a escada até a boca.

Quando a equipe esvaziou a passagem, achou o fim dos degraus debaixo d'água. O lençol freático (a água que corre sob o solo e alimenta os poços) tinha subido até tomar as câmaras.

Os mergulhadores desciam por uma passagem estreita, com a lanterna presa ao corpo. A água vinha tão turva de lama que a luz mostrava só um palmo à frente, segundo o relato de Creasman à revista.

Lá embaixo, a equipe percorreu três câmaras em sequência, com teto em abóbada cavado na pedra. Na última ficava o lugar do sepultamento do rei.

O que subiu à superfície saiu do fundo em punhados: folhas de ouro, contas e pedaços de estatuetas. O resto continua na lama, sob a água, onde a equipe deixou.

Nenhum arqueólogo tinha entrado naquelas câmaras com tanto tempo para olhar. A primeira expedição entrou às pressas, recolheu shawabtis e voltou.

O registro começa pelo rei que mandou cavar o túmulo e pela expedição que tentou descer até ele um século antes dos mergulhadores.

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I  O Registro

A pedra de Berlim e o caderno de Reisner

Nastasen governou Kush entre cerca de 335 e 315 antes de Cristo, no período que os historiadores chamam de napatano, por causa de Napata, a cidade sagrada aos pés do monte Jebel Barkal. É o rei mais bem documentado da fase final de Napata, graças a uma única pedra.

A pedra de Dongola

Em 1853, uma estela (laje de pedra com inscrição) foi achada em Dongola, no norte do Sudão, e levada para Berlim, onde está até hoje no Museu Egípcio. O texto, em hieróglifos egípcios, narra a coroação de Nastasen e as campanhas militares dele.

A estela conta que Nastasen viajou de Meroé, mais ao sul, até Napata para ser coroado no templo de Amon, o deus de Tebas adotado pelos reis núbios. Depois lista guerras contra povos vizinhos e o gado e o ouro tomados como espólio.

Um dos inimigos citados na pedra se chama Kambasuden. Alguns egiptólogos leem o nome como Khabbash, um rebelde que tentou tomar o Egito dos persas por volta de 338 antes de Cristo, mas a leitura segue em debate.

O rei mais documentado do fim de Napata deixou o texto em Berlim e o corpo debaixo d'água.

O cemitério de Taharqa

Nuri começou como cemitério com Taharqa, o faraó núbio que governou o Egito e Kush entre 690 e 664 antes de Cristo. A pirâmide dele é a maior do lugar, e os reis seguintes foram erguendo as suas em volta.

As pirâmides núbias são menores e mais íngremes que as de Gizé. Os reis de Kush copiaram a forma dos faraós egípcios séculos depois de o Egito ter abandonado esse tipo de túmulo.

Nastasen foi um dos últimos reis enterrados em Nuri. Poucas gerações depois dele, os reis de Kush passaram a ser sepultados perto de Meroé, mais ao sul, onde o reino durou até o século 4 depois de Cristo.

A expedição de Reisner

Entre 1916 e 1918, o egiptólogo americano George Andrew Reisner escavou Nuri pela expedição conjunta da Universidade Harvard e do Museu de Belas Artes de Boston. Numerou as pirâmides, desceu às câmaras que pôde e levou para os Estados Unidos uma parte do que encontrou.

No túmulo de Nastasen, um homem da equipe de Reisner entrou até a terceira câmara, recolheu shawabtis e saiu. A água já tomava as câmaras, e o registro da expedição anotou o túmulo como inundado, sem o mapa completo do interior.

Reisner morreu em 1942, em Gizé, sem voltar ao túmulo. Por quase um século, as câmaras de Nastasen ficaram como ele as deixou: anotadas no caderno e fechadas pela água.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Três câmaras e um palmo de luz

Pearce Paul Creasman, então na Universidade do Arizona, chegou a Nuri com uma licença da Corporação Nacional de Antiguidades e Museus do Sudão, o órgão que cuida dos sítios do país. A pergunta dele era a que Reisner deixou sem resposta: o que existe dentro das câmaras alagadas?

O mergulho

A equipe tirou a areia da escada e encontrou a água no fim dela. Para entrar, os mergulhadores tiveram de passar por aberturas onde mal cabia o corpo, sem enxergar o teto nem o chão, guiados pelo tato.

Segundo a National Geographic, a equipe identificou três câmaras ligadas em sequência. A primeira e a segunda serviam de passagem. A terceira guardava o sepultamento, com restos do que parece ter sido o caixão de pedra do rei.

No fundo, debaixo de lama, apareceram folhas de ouro que cobriam objetos já desfeitos, contas e fragmentos de shawabtis (estatuetas funerárias que trabalhariam pelo morto no além). Os objetos estavam onde a água os deixou, fora da posição original.

Creasman descreveu à revista um trabalho em que o arqueólogo não vê o que toca: a mão acha o objeto na lama, e só na superfície se descobre o que era. Em rocha encharcada, o teto ainda pode soltar lascas, um risco a mais para quem trabalha sem enxergar.

O túmulo foi aberto, mas o que ele guarda continua submerso.

Por que a água subiu

Ninguém mediu o nível da água em Nuri durante o século 20 inteiro. A comparação disponível é a de dois relatos: em 1917 a água cobria as câmaras, e em 2019 continuava cobrindo, com a escada inteira tomada até o meio.

Creasman citou à National Geographic duas suspeitas para a subida: a irrigação das fazendas que cresceram ao longo do Nilo no século 20 e as mudanças no rio causadas pelas represas. Ele mesmo tratou as duas como hipóteses, sem medição que as separe.

Há ainda uma terceira leitura. Os egípcios e os núbios conheciam o Nilo, e alguns pesquisadores perguntam se o túmulo já recebia água em parte desde a Antiguidade. Nenhuma camada de sedimento datada respondeu a pergunta até a publicação da reportagem.

O que se sabe com segurança é o efeito. A água amoleceu o reboco das paredes, misturou os objetos com lama e apagou o que pode ter sido pintado ou escrito ali.

 
 

III  O Que Falta Provar

O rei que ninguém viu a seco

O primeiro limite do caso é o próprio corpo do rei. A reportagem de 2019 não informa se a equipe achou ossos de Nastasen, e nenhuma publicação posterior anunciou a identificação dos restos dele.

O caixão e as paredes

Reis núbios dessa época eram sepultados com textos religiosos nas paredes ou no caixão, copiados dos livros funerários egípcios. No túmulo de Nastasen, a água e a lama ainda escondem se havia texto e quanto dele sobrou.

Sem esses textos, não se sabe quais rituais acompanharam o enterro nem se o túmulo foi saqueado antes da inundação, como aconteceu com a maior parte das pirâmides de Nuri.

O saque também segue sem resposta. Ladrões antigos costumavam entrar pela escada, e o ouro achado no fundo indica que, se houve roubo, uma parte escapou dele. Parte do que Reisner levou de Nuri está hoje no Museu de Belas Artes de Boston, e o que saiu do fundo em 2019 ficou no Sudão.

Cada punhado tirado do fundo sai sem o lugar exato onde estava.

Bombear ou mergulhar

A equipe enfrenta uma escolha de método. Bombear a água deixaria os arqueólogos trabalhar a seco, com luz e mapa, mas o ar seco do deserto pode rachar o reboco encharcado e esfarelar o que restou da madeira e do ouro.

Manter a escavação por mergulho preserva o ambiente em que os objetos sobreviveram, mas cada item sai às cegas e o mapa da câmara fica incompleto.

O que uma prova exigiria

1. Medir o nível do lençol em Nuri ao longo de anos, para saber se a água ainda sobe e com que velocidade.

2. Mapear as três câmaras com sonar ou escaneamento a laser debaixo d'água, antes de tirar mais nenhum objeto.

3. Datar a lama das camadas do fundo, para separar a água antiga da água trazida pela irrigação recente.

Sobram duas maneiras de abrir o túmulo de Nastasen. Tirar a água e ver as câmaras inteiras pela primeira vez, com o risco de perder o reboco e o ouro no ar seco, ou deixar o rei debaixo d'água e recuperar o que der, punhado a punhado, sem nunca ver o conjunto. As duas propostas estão acima, e a escolha fica com você.

 
 
 
Quiz da edição

Segundo a reportagem, qual das três câmaras do túmulo de Nastasen guardava o local de sepultamento do rei?

AA primeira câmara, logo na entrada da escada
BA segunda câmara, no meio do percurso
CA terceira câmara, no fim da sequência
DNenhuma, o caixão ficou na pirâmide, fora das câmaras

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