|
A leitura mais econômica separa dois povos sem parentesco direto. Um grupo da Idade do Ferro ergueu as jarras por volta de 1000 antes da era comum e sumiu do registro; séculos depois, gente de outra cultura encontrou o campo de pedra pronto, atribuiu a ele significado próprio e passou a enterrar os seus mortos ali.
O que sustenta essa leitura é o intervalo cru entre as duas datações e a ausência de continuidade material. Os enterros medievais trazem cerâmica, contas de vidro e objetos de metal que não aparecem em nenhuma camada contemporânea da colocação das jarras.
O que a enfraquece é a ausência de qualquer cemitério original. Se o primeiro grupo ergueu peças enormes para uso funerário, deveria haver enterros da mesma época ao redor, e o registro de sepultamento antigo nos campos escavados é magro demais para isso.
A segunda leitura mantém uma linha só, com uso contínuo do lugar durante dois milênios. As jarras teriam permanecido em função ritual ativa por gerações sucessivas de um mesmo território cultural, e os enterros medievais seriam apenas o capítulo final e mais bem preservado dessa ocupação.
O que sustenta essa leitura é a permanência do local. Ninguém remove as jarras, ninguém as derruba, ninguém as reaproveita como material de construção, comportamento que aponta para respeito mantido ao longo de muito tempo.
O que a enfraquece é o silêncio entre as pontas. O intervalo entre a colocação das peças e os primeiros enterros datados não devolveu camada intermediária, carvão, cerâmica ou estrutura que prove ocupação em qualquer ponto daquele vão.
A terceira leitura trata as jarras como equipamento de exposição do corpo, não como sepultura. O cadáver ficaria dentro da peça até a decomposição terminar, e depois os ossos limpos iriam para o solo ao redor, num funeral de duas etapas comum no Sudeste Asiático.
O que sustenta essa leitura é o formato dos depósitos secundários encontrados, com ossos reunidos em pacote compacto, exatamente o resultado esperado de quem recolhe esqueleto já limpo de um recipiente.
O que a enfraquece é a cronologia. Os pacotes de osso datados pertencem ao período medieval, e aplicar essa mecânica às jarras exige supor que a prática já existia dois mil anos antes, sem material antigo para prová-la.
O que ninguém sabe dizer é o nome do grupo que talhou a pedra. A escrita chegou tarde à região, nenhuma inscrição aparece nas peças e não existe nenhum documento contemporâneo da construção; a cultura responsável é conhecida apenas pelo que deixou no chão.
"Alguém arrastou peças de várias toneladas por quilômetros de encosta e não deixou uma única linha escrita, nem um povoado grande, nem um túmulo da própria época?"
|