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As jarras de pedra do Laos e os enterros dois mil anos mais novos

A datação por luminescência publicada em 2021 pôs as jarras de Xiangkhouang por volta de 1000 antes da era comum e os corpos ao redor delas na Idade Média

Bancada de exame à noite com a planta de um campo de jarras megalíticas aberta sobre a mesa, ficha de contexto de escavação presa em pé, tubos opacos de sedimento numerados, uma amostra de arenito e um disco de pedra sobre feltro cinza, paquímetro de bronze e lupa ao lado de cartões de resultado de luminescência, sob luz âmbar focal

Os tubos de sedimento lacrados na bancada

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: mais de duas mil jarras de pedra talhadas em arenito, algumas com três metros de altura e várias toneladas, espalhadas por planaltos e encostas da província de Xiangkhouang, no norte do Laos.

Registro: a datação por luminescência opticamente estimulada, técnica que mede quanta luz solar o grão de areia recebeu pela última vez, aplicada ao sedimento sob as jarras por Louise Shewan, Dougald O'Reilly e colegas e publicada em 2021 na revista PLOS ONE, pôs a colocação das peças entre 1240 e 660 antes da era comum.

Anomalia: os restos humanos enterrados ao redor das mesmas jarras datam dos séculos IX a XIII da era comum, quase dois mil anos depois de as peças já estarem no lugar.

As jarras de pedra da Planície dos Jarros, na província de Xiangkhouang, no norte do Laos, foram assentadas nos planaltos entre 1240 e 660 antes da era comum, segundo a datação por luminescência que Louise Shewan, Dougald O'Reilly e colegas publicaram em 2021 na revista PLOS ONE. Os restos humanos enterrados ao pé dessas mesmas jarras, no mesmo sítio e às vezes a poucos centímetros da base de pedra, datam dos séculos IX a XIII da era comum.

Entre um fato e outro há um intervalo de quase dois milênios. Quem talhou e arrastou as jarras já tinha desaparecido da paisagem havia muitas gerações quando alguém começou a enterrar gente ao redor delas.

O sítio ocupa encostas e platôs de savana no planalto de Xiangkhouang, num conjunto de mais de noventa campos catalogados com algo acima de duas mil peças. As maiores passam de três metros de altura e pesam várias toneladas, talhadas em arenito e vazadas por dentro, com tampas de pedra caídas ao lado da boca.

A arqueóloga francesa Madeleine Colani percorreu os campos na década de 1930 e publicou "Mégalithes du Haut-Laos" em 1935, o primeiro levantamento sistemático do lugar. Ela encontrou numa gruta calcária do Sítio 1 restos queimados e cinza, e propôs que as jarras serviam à cremação.

A datação por luminescência opticamente estimulada, técnica que mede há quanto tempo o grão de areia enterrado deixou de receber luz do sol, foi aplicada ao sedimento que estava debaixo das jarras, comprimido pelo peso da pedra. O resultado marca o instante em que a peça foi posta ali, não o instante em que foi talhada.

Os enterros ao redor saíram por radiocarbono num intervalo completamente diferente, bem dentro do período medieval, com corpos inteiros, ossos juntados em pacote e potes de cerâmica com restos de criança.

O sítio entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO em 2019. Boa parte dos campos segue fechada a pé por causa de munição não detonada, sobra dos bombardeios que os Estados Unidos conduziram sobre o Laos entre 1964 e 1973.

O registro de hoje começa pelo que a luz presa na areia permitiu afirmar, antes de qualquer hipótese sobre quem chegou primeiro.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, O que a luz presa no grão de areia contou

O SÍTIO

Jarras de arenito de até três metros espalhadas pelo planalto de Xiangkhouang, no norte do Laos, com tampas de pedra caídas ao lado da boca.

Jarras de arenito de até três metros espalhadas pelo planalto de Xiangkhouang, no norte do Laos, com tampas de pedra caídas ao lado da boca.

Foto: Jakub Hałun, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A técnica funciona por um princípio simples. Grãos de quartzo e feldspato acumulam energia da radiação natural do solo enquanto ficam no escuro, e liberam essa energia em forma de luz quando são expostos ao sol ou aquecidos. Medir o quanto um grão enterrado guarda dá o tempo decorrido desde a última exposição solar.

A equipe coletou o sedimento em tubos opacos, cravados sob a base das jarras sem que a amostra jamais visse a luz do dia. O grão sob a pedra parou de receber sol no momento exato em que a jarra foi arrastada para cima dele.

As amostras de três campos diferentes convergiram para o mesmo intervalo, entre 1240 e 660 antes da era comum, o que situa a colocação das peças na transição entre a Idade do Bronze e a Idade do Ferro no Sudeste Asiático continental.

Um segundo exame atacou a origem da matéria-prima. Análise de zircão por urânio e chumbo, método que lê a idade geológica de cristais minúsculos dentro da rocha, comparou as jarras com afloramentos de arenito da região e amarrou várias peças a pedreiras a quilômetros de distância dos campos onde elas estão hoje.

Os resultados indicam que as jarras foram colocadas na paisagem já no segundo milênio antes da era comum, enquanto a atividade funerária registrada ao redor delas é consideravelmente mais recente.

Louise Shewan, Dougald O'Reilly e colegas, "Dating the megalithic culture of Laos", PLOS ONE, 2021

O transporte é a parte concreta do problema. Uma peça de várias toneladas saiu de uma pedreira, atravessou terreno acidentado e subiu encosta até a posição final, trabalho que exige organização de muita gente, corda, trenó de madeira e rolete, sem nenhum vestígio de povoado grande nas redondezas imediatas.

O que as jarras guardavam originalmente continua vazio de evidência. Nenhuma escavação recuperou conteúdo primário dentro de uma peça intacta e lacrada; o que aparece dentro delas é sedimento acumulado por séculos de chuva e material mexido por saque antigo.

Os discos de pedra encontrados ao lado das bocas complicam a leitura. Alguns servem como tampa pelo diâmetro, outros não fecham jarra nenhuma e aparecem deitados sobre depósitos de osso no chão, funcionando como marcador de sepultura.

Os enterros medievais ao redor seguem três formatos distintos, todos registrados na mesma escavação: corpo estendido inteiro, ossos secundários juntados em pacote compacto depois que a carne já tinha sumido, e cerâmica funerária contendo restos de indivíduo jovem.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Quem chegou primeiro e quem veio muito depois

A leitura mais econômica separa dois povos sem parentesco direto. Um grupo da Idade do Ferro ergueu as jarras por volta de 1000 antes da era comum e sumiu do registro; séculos depois, gente de outra cultura encontrou o campo de pedra pronto, atribuiu a ele significado próprio e passou a enterrar os seus mortos ali.

O que sustenta essa leitura é o intervalo cru entre as duas datações e a ausência de continuidade material. Os enterros medievais trazem cerâmica, contas de vidro e objetos de metal que não aparecem em nenhuma camada contemporânea da colocação das jarras.

O que a enfraquece é a ausência de qualquer cemitério original. Se o primeiro grupo ergueu peças enormes para uso funerário, deveria haver enterros da mesma época ao redor, e o registro de sepultamento antigo nos campos escavados é magro demais para isso.

A segunda leitura mantém uma linha só, com uso contínuo do lugar durante dois milênios. As jarras teriam permanecido em função ritual ativa por gerações sucessivas de um mesmo território cultural, e os enterros medievais seriam apenas o capítulo final e mais bem preservado dessa ocupação.

O que sustenta essa leitura é a permanência do local. Ninguém remove as jarras, ninguém as derruba, ninguém as reaproveita como material de construção, comportamento que aponta para respeito mantido ao longo de muito tempo.

O que a enfraquece é o silêncio entre as pontas. O intervalo entre a colocação das peças e os primeiros enterros datados não devolveu camada intermediária, carvão, cerâmica ou estrutura que prove ocupação em qualquer ponto daquele vão.

A terceira leitura trata as jarras como equipamento de exposição do corpo, não como sepultura. O cadáver ficaria dentro da peça até a decomposição terminar, e depois os ossos limpos iriam para o solo ao redor, num funeral de duas etapas comum no Sudeste Asiático.

O que sustenta essa leitura é o formato dos depósitos secundários encontrados, com ossos reunidos em pacote compacto, exatamente o resultado esperado de quem recolhe esqueleto já limpo de um recipiente.

O que a enfraquece é a cronologia. Os pacotes de osso datados pertencem ao período medieval, e aplicar essa mecânica às jarras exige supor que a prática já existia dois mil anos antes, sem material antigo para prová-la.

O que ninguém sabe dizer é o nome do grupo que talhou a pedra. A escrita chegou tarde à região, nenhuma inscrição aparece nas peças e não existe nenhum documento contemporâneo da construção; a cultura responsável é conhecida apenas pelo que deixou no chão.

"Alguém arrastou peças de várias toneladas por quilômetros de encosta e não deixou uma única linha escrita, nem um povoado grande, nem um túmulo da própria época?"

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O que falta escavar sob a munição não detonada

A primeira lacuna é de cobertura. Menos de dez dos mais de noventa campos catalogados receberam escavação moderna com datação, e o retrato atual do sítio vem de uma fração pequena de um conjunto imenso, espalhado por centenas de quilômetros quadrados.

A segunda é a munição. O Laos recebeu mais de dois milhões de toneladas de bombas entre 1964 e 1973, e a província de Xiangkhouang ficou entre as mais atingidas; a fração de submunição que não detonou continua no solo e limita a escavação a faixas já limpas por equipes especializadas.

A terceira é de origem humana. Isótopos de estrôncio no esmalte dos dentes dos enterros medievais registram a água bebida na infância e diriam se aquela gente nasceu no planalto ou chegou de fora, dado que testaria de uma vez a hipótese dos dois povos.

A quarta é de parentesco. DNA antigo dos esqueletos medievais comparado com populações vizinhas mostraria se a comunidade que enterrou ao pé das jarras descende de habitantes antigos do planalto ou representa uma chegada posterior.

A quinta é de cronologia interna. Aplicar luminescência a dezenas de jarras em campos distintos, e não a algumas peças, diria se todas foram assentadas num mesmo esforço concentrado ou ao longo de séculos, um campo de cada vez.

A sexta é de assentamento. Nenhuma aldeia contemporânea da colocação das jarras foi localizada perto dos campos principais, e prospecção sistemática ao redor das pedreiras identificadas pelo exame de zircão é o caminho mais direto para encontrar onde morava quem carregou a pedra.

O caso hoje sustenta duas leituras com o mesmo conjunto de evidências. Ou o planalto foi usado sem interrupção por dois milênios, com as jarras em função ativa até a chegada dos enterros medievais; ou o campo de pedra ficou abandonado durante séculos e foi readotado por gente que não tinha ligação nenhuma com quem o construiu.

A escolha decide onde cavar primeiro. Apostar na continuidade é procurar camada intermediária e assentamento antigo ao redor das pedreiras de arenito, atrás da ocupação que faltaria no meio; apostar na readoção é ir para o estrôncio e o DNA dos esqueletos medievais, atrás da população recém-chegada. As duas contas estão acima.

 
 
 

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Segundo a datação por luminescência publicada em 2021, quanto tempo separa a colocação das jarras de Xiangkhouang dos enterros encontrados ao redor delas?

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BCerca de 700 anos
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DMais de cinco mil anos

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