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ED 101

Os invasores que o Egito nomeou e ninguém achou

Os relevos de Medinet Habu listam cinco povos que atacaram o Egito por volta de 1177 a.C., e a arqueologia não localizou a terra de nenhum.

Uma bancada de arquivo à noite com a cópia em papel de um relevo de batalha egípcio mostrando filas de cativos amarrados, uma prancha epigráfica de um barco com proa em cabeça de ave, uma bandeja de fragmentos de cerâmica pintada, uma tabela impressa de nomes estrangeiros transliterados e um mapa dobrado da costa do Mediterrâneo oriental sem marcação, tudo sob luz âmbar focal

O relevo da batalha sobre a bancada do arquivo

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: no muro do templo funerário de Ramsés III, em Medinet Habu, cenas datadas do ano 8 do reinado mostram uma frota inimiga cercada nas bocas do Nilo e prisioneiros em fila com o nome de cada grupo ao lado.

Registro: as legendas dão cinco etnônimos, Peleset, Tjeker, Shekelesh, Denyen e Weshesh, e um texto de Merneptah acrescenta outros quatro.

Anomalia: nenhum desses povos deixou arquivo próprio, e a origem de cada um segue como hipótese de som parecido, sem sítio escavado que confirme a partida.

Na margem oeste de Tebas, a poucos quilômetros do Nilo, existe um templo funerário cujas paredes externas funcionam como relatório de guerra. Medinet Habu foi erguido por Ramsés III no século 12 antes da era cristã e guarda, no muro norte, o maior conjunto de cenas de batalha preservado do Egito antigo.

A campanha principal tem data no próprio texto: o ano 8 do reinado, cerca de 1177 antes da era cristã pela cronologia mais usada. As cenas mostram uma frota inimiga presa dentro das bocas do delta, barcos com proa e popa em cabeça de ave, arqueiros egípcios atirando da margem e das embarcações, e prisioneiros amarrados em fila.

Ao lado de cada fila de cativos há uma legenda curta, gravada, que dá o nome do grupo. Peleset, Tjeker, Shekelesh, Denyen e Weshesh. Uma lista anterior, do reinado de Merneptah, cerca de trinta anos antes, acrescenta Sherden, Lukka, Ekwesh e Teresh. Nove nomes ao todo, escritos por escribas que tinham motivo prático para separar um inimigo do outro.

O problema começa quando se procura o outro lado do registro. Nenhum desses grupos deixou arquivo próprio, cidade escavada com o nome na porta, ou inscrição em que se identifique com a mesma palavra. O que se sabe vem de quem os derrotou e escreveu a versão oficial na parede.

A própria expressão Povos do Mar não é egípcia. Ela nasceu no século 19, na obra de um egiptólogo francês, e reuniu num rótulo só grupos que os textos antigos tratam em separado, uns vindos das ilhas do meio do mar, outros chegando por terra em carros de boi, com mulheres e crianças.

Existe um dado que muda a escala do caso. Entre 1200 e 1150 antes da era cristã, a rede de palácios do Mediterrâneo oriental se desfez. Hattusa foi abandonada, Ugarit queimou e não voltou, Micenas e Pilos caíram. O nome dos invasores aparece bem no meio dessa faixa de tempo.

Antes de discutir de onde eles vieram, vale ler com cuidado o que a parede afirma e o que ela deixa de fora.

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I  O Registro

O muro que dá nome ao inimigo

O relevo do ano 8 não é uma cena solta. Ele integra um programa decorativo grande, com a campanha contra os líbios, a campanha terrestre no norte e a batalha naval no delta, cada uma com seu texto em coluna vertical e suas legendas curtas coladas nas figuras.

A batalha naval é a peça mais copiada da parede. Os barcos inimigos aparecem sem remos em movimento, com vela recolhida, alguns virados de lado, e os egípcios atacam de bordo e da margem. A composição é de armadilha: a frota foi deixada entrar por uma das bocas do rio e cercada ali dentro.

O detalhe que os epigrafistas mais estudam está na cabeça dos combatentes. Um grupo usa um adorno alto de feixe vertical, chamado de touca de penas ou de juncos. Outro traz capacete de chifres e disco. Um terceiro, touca redonda. Barba, cinto e escudo também mudam de fila para fila.

Essa variação importa porque é sistemática. O escultor não desenhou estrangeiro genérico: ele distinguiu tipos, e as legendas acompanham a distinção. Daí o painel ser tratado como fonte etnográfica, mesmo sendo propaganda de vitória.

O texto que corre acima das cenas é curto e direto sobre o alcance da ameaça, e nomeia os reinos que já tinham caído antes de o ataque chegar ao Egito.

As terras estrangeiras fizeram uma conspiração em suas ilhas. De uma vez as terras foram removidas e dispersadas pelo conflito. Nenhuma terra resistiu diante de seus braços, desde Hatti, Kode, Carquemis, Arzawa e Alashiya.

Inscrição do ano 8 de Ramsés III, Medinet Habu, c. 1177 a.C.

Há um segundo registro egípcio que amarra a cronologia. O Papiro Harris I, do fim do reinado, repete a vitória e acrescenta um dado administrativo: parte dos prisioneiros foi assentada em fortalezas do próprio Egito e lançada em lista de rendimento anual, o inimigo virando mão de obra em endereço conhecido.

Fora do Egito existe correspondência que descreve o mesmo período por dentro. Nas tabuletas de Ugarit, o rei Amurapi responde a um pedido de socorro dizendo que sua frota está no mar da Lícia e que sete navios inimigos já causaram estrago no litoral. A cidade foi destruída pouco depois e nunca reocupada.

O que sustenta a leitura arqueológica do lado levantino é a cerâmica. Em Ashdod, Ashkelon, Ekron e Gath aparece, nas camadas do início do século 12, uma louça pintada de fabricação local com formas de tradição egeia, sucedida por um estilo bicromático. É a assinatura material mais citada para a chegada dos Peleset.

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II  A Pergunta em Aberto

Nove nomes sem endereço

A identificação de cada grupo repousa quase toda em parecença de som com um topônimo conhecido de outra fonte. Peleset é lido como filisteu, Lukka como Lícia, Denyen como os Danaoi da tradição grega, Sherden como Sardenha, Shekelesh como Sicília, Teresh como os tirrenos da Etrúria.

O método tem um defeito conhecido. A escrita egípcia registra consoantes e adapta som estrangeiro ao próprio inventário, o que deixa cada nome com margem larga de reconstrução. Parecença sonora entre palavras separadas por séculos e por sistemas de escrita diferentes indica pista, não procedência.

Existe também um problema de direção. Sardenha e Sicília aparecem como origem nas propostas, mas o nome de cada ilha é atestado bem depois do relevo, e há quem defenda o movimento inverso: os grupos teriam batizado as ilhas ao se estabelecer nelas.

O caso dos Sherden mostra o quanto o rótulo é frouxo. Eles aparecem como piratas no litoral egípcio já nas cartas de Amarna, no século 14, depois como guarda pessoal de Ramsés II em Cadesh, lutando ao lado do faraó, e por fim entre os inimigos do ano 8. O mesmo nome cobre saqueador, mercenário contratado e invasor derrotado.

Os Povos do Mar provavelmente foram tanto vítimas quanto agentes do colapso, e não a causa isolada que a narrativa tradicional lhes atribuiu.

Eric H. Cline, 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed, Princeton University Press, 2014

O relevo terrestre acrescenta outra dificuldade. A cena mostra carros puxados por bois, com carga doméstica, mulheres e crianças no alto, avançando junto com os combatentes. Uma frota de saque não leva a casa junto. A imagem descreve deslocamento de população, e movimento assim costuma deixar sítio de partida abandonado em massa.

Esse sítio de partida é justamente o que falta. Não existe, até agora, um lugar escavado no Egeu, na Anatólia ocidental ou nas ilhas do Mediterrâneo central cuja camada de abandono possa ser amarrada, com data e cultura material, à saída de um dos nove grupos nomeados na parede.

A cerâmica do Levante mostra o outro lado da equação. Ela é de tradição egeia na forma e no motivo, mas feita com argila local: prova produção no lugar de chegada, por gente que conhecia o repertório, e nada sobre a geografia exata da partida.

Há ainda a hipótese que dispensa migração. Uma parte da literatura lê o colapso como falha em cadeia de um sistema comercial muito integrado, com seca prolongada, corte de rota de estanho, revolta interna e queda de palácio, e trata os grupos armados como efeito de um mundo já quebrado, gente deslocada em busca de terra.

Sobra a pergunta que a parede não responde: quem eram, exatamente, os cinco nomes do ano 8. O Egito registrou o rosto, o penteado, o barco e o etnônimo de cada um, e nenhuma dessas informações leva a um ponto no mapa que a escavação confirme.

 
 

III  O Que Falta Provar

O que ainda não foi medido

A primeira medida pendente é a análise de proveniência da cerâmica pintada do Levante em escala grande. Composição química da argila e petrografia já distinguem oficina e região; num lote amplo dos sítios filisteus, mostrariam se o repertório egeu veio de um foco só ou de várias tradições.

A segunda é a genética das populações do início do século 12. As poucas amostras já publicadas do sul do Levante apontam para um componente de ancestralidade vinda do sul da Europa que aparece naquele momento e se dilui em poucas gerações. É um resultado de amostra pequena, e só um conjunto grande, com sítios de várias regiões, sustenta conclusão sobre rota.

A terceira é o isótopo no esmalte dentário. Estrôncio e oxigênio nos dentes guardam a assinatura geológica da água bebida na infância e separam quem nasceu no lugar de quem chegou adulto. Aplicado aos cemitérios do período, diz se a mudança de cultura material veio com gente nova ou com moda copiada.

A quarta é a escavação sistemática das camadas de destruição na Anatólia ocidental e nas ilhas. Enquanto o foco ficar no destino do movimento, o ponto de partida segue invisível. Um sítio com abandono datado, cultura material compatível e sem reocupação seria a primeira âncora do lado de lá.

A quinta é a revisão epigráfica do painel com registro tridimensional de alta resolução. Boa parte das leituras correntes vem de cópias dos anos 1930, e a varredura moderna recupera traço apagado, correção antiga do escultor e pintura residual, tudo capaz de mudar uma legenda curta.

A sexta é o cruzamento dos arquivos que já existem. As tabuletas de Ugarit, as cartas hititas sobre Ahhiyawa e o material de Chipre ainda não foram lidos junto com o relevo dentro de uma cronologia única, revisada e comum às três especialidades.

A sétima é a climatologia de resolução fina. Núcleos de sedimento de lagos da Anatólia e da costa síria já indicam uma seca prolongada nessa faixa de tempo. Datar essa fase ano a ano e cruzá-la com as camadas de destruição diria se a fome antecede o ataque ou vem depois.

O caso tem uma inversão que o define. Do lado do Egito existe data, cena, nome, penteado, tipo de barco e até o destino administrativo dos prisioneiros, tudo gravado em pedra por quem venceu a batalha.

Do lado dos nomeados existe uma louça feita com barro local, um punhado de dentes, uma parecença de som com o nome de ilhas que só seriam chamadas assim séculos depois, e nenhum lugar no mapa de onde se possa dizer, com prova, que eles partiram.

 
 
 
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