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A identificação de cada grupo repousa quase toda em parecença de som com um topônimo conhecido de outra fonte. Peleset é lido como filisteu, Lukka como Lícia, Denyen como os Danaoi da tradição grega, Sherden como Sardenha, Shekelesh como Sicília, Teresh como os tirrenos da Etrúria.
O método tem um defeito conhecido. A escrita egípcia registra consoantes e adapta som estrangeiro ao próprio inventário, o que deixa cada nome com margem larga de reconstrução. Parecença sonora entre palavras separadas por séculos e por sistemas de escrita diferentes indica pista, não procedência.
Existe também um problema de direção. Sardenha e Sicília aparecem como origem nas propostas, mas o nome de cada ilha é atestado bem depois do relevo, e há quem defenda o movimento inverso: os grupos teriam batizado as ilhas ao se estabelecer nelas.
O caso dos Sherden mostra o quanto o rótulo é frouxo. Eles aparecem como piratas no litoral egípcio já nas cartas de Amarna, no século 14, depois como guarda pessoal de Ramsés II em Cadesh, lutando ao lado do faraó, e por fim entre os inimigos do ano 8. O mesmo nome cobre saqueador, mercenário contratado e invasor derrotado.
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Os Povos do Mar provavelmente foram tanto vítimas quanto agentes do colapso, e não a causa isolada que a narrativa tradicional lhes atribuiu.
Eric H. Cline, 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed, Princeton University Press, 2014
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O relevo terrestre acrescenta outra dificuldade. A cena mostra carros puxados por bois, com carga doméstica, mulheres e crianças no alto, avançando junto com os combatentes. Uma frota de saque não leva a casa junto. A imagem descreve deslocamento de população, e movimento assim costuma deixar sítio de partida abandonado em massa.
Esse sítio de partida é justamente o que falta. Não existe, até agora, um lugar escavado no Egeu, na Anatólia ocidental ou nas ilhas do Mediterrâneo central cuja camada de abandono possa ser amarrada, com data e cultura material, à saída de um dos nove grupos nomeados na parede.
A cerâmica do Levante mostra o outro lado da equação. Ela é de tradição egeia na forma e no motivo, mas feita com argila local: prova produção no lugar de chegada, por gente que conhecia o repertório, e nada sobre a geografia exata da partida.
Há ainda a hipótese que dispensa migração. Uma parte da literatura lê o colapso como falha em cadeia de um sistema comercial muito integrado, com seca prolongada, corte de rota de estanho, revolta interna e queda de palácio, e trata os grupos armados como efeito de um mundo já quebrado, gente deslocada em busca de terra.
Sobra a pergunta que a parede não responde: quem eram, exatamente, os cinco nomes do ano 8. O Egito registrou o rosto, o penteado, o barco e o etnônimo de cada um, e nenhuma dessas informações leva a um ponto no mapa que a escavação confirme.
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A primeira medida pendente é a análise de proveniência da cerâmica pintada do Levante em escala grande. Composição química da argila e petrografia já distinguem oficina e região; num lote amplo dos sítios filisteus, mostrariam se o repertório egeu veio de um foco só ou de várias tradições.
A segunda é a genética das populações do início do século 12. As poucas amostras já publicadas do sul do Levante apontam para um componente de ancestralidade vinda do sul da Europa que aparece naquele momento e se dilui em poucas gerações. É um resultado de amostra pequena, e só um conjunto grande, com sítios de várias regiões, sustenta conclusão sobre rota.
A terceira é o isótopo no esmalte dentário. Estrôncio e oxigênio nos dentes guardam a assinatura geológica da água bebida na infância e separam quem nasceu no lugar de quem chegou adulto. Aplicado aos cemitérios do período, diz se a mudança de cultura material veio com gente nova ou com moda copiada.
A quarta é a escavação sistemática das camadas de destruição na Anatólia ocidental e nas ilhas. Enquanto o foco ficar no destino do movimento, o ponto de partida segue invisível. Um sítio com abandono datado, cultura material compatível e sem reocupação seria a primeira âncora do lado de lá.
A quinta é a revisão epigráfica do painel com registro tridimensional de alta resolução. Boa parte das leituras correntes vem de cópias dos anos 1930, e a varredura moderna recupera traço apagado, correção antiga do escultor e pintura residual, tudo capaz de mudar uma legenda curta.
A sexta é o cruzamento dos arquivos que já existem. As tabuletas de Ugarit, as cartas hititas sobre Ahhiyawa e o material de Chipre ainda não foram lidos junto com o relevo dentro de uma cronologia única, revisada e comum às três especialidades.
A sétima é a climatologia de resolução fina. Núcleos de sedimento de lagos da Anatólia e da costa síria já indicam uma seca prolongada nessa faixa de tempo. Datar essa fase ano a ano e cruzá-la com as camadas de destruição diria se a fome antecede o ataque ou vem depois.
O caso tem uma inversão que o define. Do lado do Egito existe data, cena, nome, penteado, tipo de barco e até o destino administrativo dos prisioneiros, tudo gravado em pedra por quem venceu a batalha.
Do lado dos nomeados existe uma louça feita com barro local, um punhado de dentes, uma parecença de som com o nome de ilhas que só seriam chamadas assim séculos depois, e nenhum lugar no mapa de onde se possa dizer, com prova, que eles partiram.
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