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A urna dos príncipes da Torre espera o DNA desde 1678

Eduardo V e o irmão sumiram da Torre de Londres em 1483; os ossos achados em 1674 nunca passaram por exame genético

A Torre Branca, no centro da Torre de Londres, ao entardecer

A Torre Branca, na Torre de Londres

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: Príncipes da Torre.

Local: Torre de Londres, 1483.

Anomalia: ossos sem DNA.

Em 2013, a geneticista Turi King, de Leicester, confirmou por DNA mitocondrial (o material genético passado só pela mãe) a identidade de um esqueleto achado sob um estacionamento: era Ricardo III, rei da Inglaterra, segundo o estudo publicado pela equipe dela na revista Nature Communications em 2014. Em Londres, os ossos de dois meninos atribuídos aos sobrinhos dele repousam numa urna de mármore da Abadia de Westminster desde 1678, e nenhum laboratório jamais tirou deles uma amostra.

Os dois casos dividem a mesma família, o mesmo século e a mesma suspeita. Só um passou pelo laboratório.

Os meninos são Eduardo V, rei aos doze anos, e o irmão Ricardo de Shrewsbury, duque de York, com nove. Entraram na Torre de Londres na primavera de 1483 e nunca mais foram vistos fora dela.

O tio dos dois foi coroado naquele verão. Dois anos depois, caiu na batalha de Bosworth e foi enterrado sem pompa num convento de Leicester. O convento sumiu, a cidade cresceu por cima, e o rei acabou sob o asfalto.

Em 2015, Ricardo III ganhou túmulo novo na catedral de Leicester, depois de a equipe de Turi King cruzar o DNA dele com o de dois descendentes vivos da irmã, Ana de York, pela linha das mulheres da família.

A urna dos sobrinhos teve destino oposto: lugar de honra na capela de Henrique VII, com uma inscrição em latim que acusa o tio. A abadia, porém, responde direto ao monarca, e abrir um túmulo ali depende de licença real. Para um exame genético, essa licença nunca saiu.

Desde 1674, a única comparação feita com os ossos da caixa foi contra um texto: o relato de um escritor da corte Tudor que nunca viu os meninos e apontou onde eles estariam enterrados.

Faltam ao caso os dois meninos vivos, um corpo identificado e uma confissão escrita. Sobram uma escada demolida, uma caixa de madeira e mais de cinco séculos de acusação.

A pista começa nos papéis de 1483, e no que um visitante italiano viu pelas janelas da Torre.

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I  O Registro

Os meninos atrás das grades da Torre

Eduardo V da Inglaterra tinha doze anos quando o pai, o rei Eduardo IV, foi sepultado em abril de 1483. O irmão, Ricardo de Shrewsbury, duque de York, tinha nove. O tio, Ricardo, duque de Gloucester, assumiu como Lorde Protetor (o regente que governa enquanto o rei é menor de idade).

Da coroação adiada ao trono do tio

Em maio, Eduardo chegou a Londres e foi alojado na Torre, na época residência real e não só prisão, à espera da coroação. A mãe, a rainha Elizabeth Woodville, tinha se refugiado com o caçula no santuário da Abadia de Westminster.

Em junho, no dia 16, o caçula foi entregue ao tio e levado para junto do irmão. Seis dias depois, o pregador Ralph Shaa declarou em sermão público os dois meninos ilegítimos, alegando um compromisso de casamento anterior do pai com Eleanor Butler.

Em 6 de julho, Gloucester foi coroado Ricardo III. O Parlamento confirmou a tese em 1484 com o Titulus Regius (Título Real, a lei que tirou dos sobrinhos o direito ao trono).

O que o italiano viu

O registro mais próximo dos fatos vem de Dominic Mancini, clérigo italiano que estava em Londres naquele ano e deixou a cidade antes da coroação. Ele fechou o relato no fim de 1483, poucos meses depois.

Em De Occupatione Regni Anglie (A ocupação do reino da Inglaterra), de 1483, Mancini escreveu: “Ele e o irmão foram recolhidos aos aposentos internos da Torre, e dia após dia começaram a ser vistos mais raramente atrás das grades e janelas, até deixarem de aparecer.”

Depois do verão de 1483, nenhum documento da época registra os dois meninos vivos.

Mancini cita também o médico John Argentine, o último de fora a atender o rei menino: segundo ele, Eduardo se confessava e fazia penitência todos os dias, como quem espera o fim. O manuscrito ficou esquecido até 1934, quando o historiador C. A. J. Armstrong o encontrou na biblioteca municipal de Lille, na França.

A caixa sob a escada

Quase dois séculos depois, em 1674, operários demoliam uma escada junto à Torre Branca, o prédio central da fortaleza. A uns três metros de profundidade, acharam uma caixa de madeira com dois esqueletos pequenos.

O lugar batia com o relato de Thomas More, escrito na década de 1510, que punha os corpos “ao pé da escada, bem fundo na terra, sob um grande monte de pedras”.

O rei Carlos II mandou guardar os ossos numa urna desenhada pelo arquiteto Christopher Wren. Desde 1678, ela fica na capela de Henrique VII, em Westminster, com a inscrição que chama Ricardo III de tio pérfido e usurpador do reino.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Três suspeitos e um pretendente

O sumiço de Eduardo V e de Ricardo de Shrewsbury tem uma versão oficial desde Thomas More: o tio mandou eliminar os sobrinhos. Essa versão, porém, nasceu sob a dinastia Tudor, a mesma que tomou o trono do tio em 1485, e os historiadores a tratam por esse motivo como peça de acusação.

A versão de More

A História do Rei Ricardo III, que More deixou inacabada, aponta o cavaleiro James Tyrell como o encarregado. Dois homens dele, Miles Forest e John Dighton, teriam sufocado os meninos com travesseiros durante a noite.

More acrescenta que Tyrell confessou antes de ser executado por traição, em 1502. Nenhum documento dessa confissão sobreviveu. More tinha cinco anos em 1483 e escreveu a partir do que ouvia na corte Tudor, décadas depois.

Os outros nomes

Henry Stafford, duque de Buckingham, foi o aliado mais forte de Ricardo na tomada do trono. Em outubro de 1483, rebelou-se contra o rei e acabou decapitado semanas depois. Teve acesso à corte nos meses do sumiço, e alguns historiadores o apontam como autor por conta própria.

Henrique VII, o vencedor de Bosworth, também entra na lista. Casou com Elizabeth de York, irmã dos meninos, e revogou o Titulus Regius para legitimar a esposa. A revogação devolvia aos irmãos o direito ao trono: se algum deles estivesse vivo, seria rival do novo rei.

Quem mais perdia com os meninos vivos mudou de nome duas vezes em dois anos.

O menino que voltou

Em 1491, um jovem chamado Perkin Warbeck apareceu na Irlanda dizendo ser Ricardo de Shrewsbury. Margarida de Borgonha, irmã de Eduardo IV, o reconheceu como sobrinho, e o rei Jaime IV da Escócia lhe deu uma prima em casamento.

Capturado em 1497, Warbeck assinou confissão dizendo ser filho de um funcionário de Tournai, em Flandres. Foi enforcado em 1499. A confissão saiu sob custódia de Henrique VII e, por esse motivo, não encerra a dúvida.

Em 2023, a historiadora Philippa Langley, à frente do projeto Missing Princes (Príncipes Desaparecidos), publicou papéis de arquivos europeus que, na leitura dela, mostram os dois irmãos vivos depois de 1483. Outros historiadores contestam essa leitura, e nenhum dos papéis traz prova física de identidade.

O que se sabe: os meninos saem dos registros no verão de 1483. O que não se sabe: se morreram na Torre, quando e por ordem de quem. Falta um corpo identificado e falta um documento da época que diga.

 
 

III  O Que Falta Provar

A urna fechada pela Coroa

A urna de Westminster foi aberta uma única vez, em 1933. O arquivista Lawrence Tanner e o anatomista William Wright, com o dentista George Northcroft, examinaram os ossos por poucos dias e os devolveram ao mármore.

Wright concluiu que eram duas crianças, uma de doze ou treze anos e outra mais nova, idades compatíveis com os príncipes. Viu uma mancha no osso do rosto da mais velha e a leu como sinal de sufocação. Junto aos ossos humanos havia ossos de animais e pregos.

Os limites de 1933

Wright não tinha como datar o material: o método do radiocarbono só seria publicado por Willard Libby em 1949. O sexo dos esqueletos também ficou sem prova, porque o osso de criança antes da puberdade não o revela com segurança.

A Torre está ocupada desde a Idade Média e foi erguida sobre terreno usado na época romana. Dois esqueletos infantis sob uma escada, sem data, podem ser de qualquer século.

Em 1987, a antropóloga Theya Molleson, do Museu de História Natural de Londres, apontou nos dentes da urna uma falha congênita (dentes que nunca chegaram a nascer) parecida com a de Anne Mowbray, a menina-noiva de Ricardo de Shrewsbury e parente distante dos dois. O sinal sugere parentesco, mas não identifica ninguém.

O que um exame exigiria

1. Datação por radiocarbono, para saber se os ossos são do século XV ou de outra época.

2. Extração de DNA dos ossos e dos dentes, que podem ter se degradado em cinco séculos.

3. Uma referência viva da linha materna de Elizabeth Woodville, montada por genealogia, para comparar o DNA mitocondrial.

Sem a licença do monarca, nenhum laboratório toca na urna.

A Abadia de Westminster é um Royal Peculiar (igreja ligada direto à Coroa, fora da autoridade de qualquer bispo). A decisão de abrir túmulo real cabe ao rei, e a abadia tem recusado os pedidos alegando o respeito aos sepultados e o precedente de mexer em outros túmulos reais.

O que está firme: dois meninos da casa de York somem dos registros em 1483, e dois esqueletos infantis aparecem sob uma escada da Torre em 1674. A ligação entre os dois fatos segue sem datação e sem DNA.

Abrir a urna de Wren, datar os ossos e comparar o DNA com a linha de Elizabeth Woodville, com o risco de descobrir que eles nem são do século XV; ou manter o selo da Coroa e deixar a inscrição de 1678 como a última palavra sobre os meninos. Os registros e os limites estão acima, e a escolha fica com você.

 
 
 
Quiz da edição

Desde que ano a urna com os ossos atribuídos aos príncipes da Torre está na capela de Henrique VII, em Westminster, sem nunca ter passado por exame de DNA?

A1483, ano em que os meninos entraram na Torre de Londres
B1678, ano em que a urna foi colocada na capela de Henrique VII
C1674, ano em que os ossos foram achados sob a escada demolida
D1502, ano da execução de James Tyrell

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