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ED 128

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Rainha Himiko e o reino que ninguém consegue pôr no mapa

Uma crônica chinesa de 297 descreve a rainha de Yamatai em detalhe, e o reino dela pode ter ficado em Kyushu ou perto de Nara

Túmulo antigo em forma de fechadura coberto de árvores entre arrozais de Nara, sob luz âmbar

Hashihaka, planície de Nara, Japão

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: por volta de 297, a crônica chinesa dos Wei descreve a rainha Himiko, de Yamatai.

Registro: em 238, uma embaixada dela chegou a Luoyang e voltou com selo de ouro e cem espelhos.

Anomalia: a rota do texto termina no mar, e o reino pode ter ficado em Kyushu ou perto de Nara.

A crônica dos Wei, capítulo dos Registros dos Três Reinos que o historiador Chen Shou compilou por volta de 297, descreve com minúcia a rainha Himiko, soberana de Wa (nome que a China dava ao arquipélago japonês): onde morava, quantas servas tinha, que presentes recebeu do imperador. O Nihon Shoki, crônica oficial terminada pela corte japonesa em 720, não traz nenhuma soberana chamada Himiko no texto principal.

Os compiladores japoneses conheciam a obra chinesa. Copiaram trechos dela numa nota sobre a imperatriz Jingū, figura lendária da corte, e seguiram adiante sem escrever Himiko nem Yamatai, o reino onde a crônica dos Wei põe a rainha.

O texto chinês também traça o caminho até ela. Parte da comanderia de Daifang, posto chinês na península coreana, cruza o estreito pelas ilhas de Tsushima e Iki, desembarca no norte de Kyushu e passa por portos listados com número de casas. Depois vêm vinte dias de barco rumo ao sul até Toma e mais dez dias de barco e um mês a pé até Yamatai.

Seguida ao pé da letra, a rota passa bem ao sul de Kyushu e acaba em alto-mar, no Pacífico. Algum dado da crônica está errado: a direção, as distâncias, ou as duas.

Quem troca o sul pelo leste chega à planície de Nara, onde mais tarde se firmou a dinastia imperial. Quem encurta as distâncias fica em Kyushu, a ilha mais próxima da Coreia. As duas correções cabem no texto, e cada uma muda a origem do Japão.

A disputa começou no século 18, com o erudito Arai Hakuseki, e segue aberta hoje, com escavações nas duas regiões e nenhum achado que a encerre.

Para entender por que a rainha escapa do mapa, o ponto de partida é o que a crônica chinesa registrou sobre ela e sobre a embaixada que ela mandou à capital dos Wei.

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I  O Registro

I, Uma rainha vista de Luoyang

O SÍTIO

O montículo arborizado do Hashihaka, em Sakurai, na planície de Nara, cercado pelo fosso.

O montículo arborizado do Hashihaka, em Sakurai, na planície de Nara, cercado pelo fosso.

Foto: Saigen Jiro, Wikimedia Commons, CC0

Em 238, segundo a crônica dos Wei, um enviado da rainha Himiko chamado Nashime chegou a Luoyang, capital da dinastia Wei, no norte da China. Levava como tributo dez escravos e dois rolos de tecido estampado. O texto data a chegada no segundo ano da era Jingchu; parte dos historiadores corrige para 239, porque a rota pela Coreia só se abriu depois que os Wei retomaram a região naquele verão.

A resposta do imperador Cao Rui veio num decreto que a crônica transcreve. Himiko recebeu o título de Rainha de Wa Amiga dos Wei, um selo de ouro com fita púrpura e uma lista de presentes: tecidos, ouro, duas espadas longas, pérolas e cem espelhos de bronze.

Os espelhos pesam na investigação. Na China, espelho era presente diplomático; em Wa, virava objeto de poder, enterrado com chefes. Cem peças vindas da corte Wei deveriam aparecer em algum túmulo japonês do século 3.

O retrato da rainha

A crônica descreve Wa como um conjunto de cerca de trinta países que guerrearam entre si por décadas. A paz veio quando eles escolheram juntos uma mulher para reinar. O texto diz que ela era solteira, já tinha idade avançada e raramente era vista.

Chen Shou escreveu, na crônica dos Wei, por volta de 297: «Ela se ocupava do caminho dos espíritos e sabia encantar o povo.» O caminho dos espíritos, kidō em japonês (prática religiosa ligada a espíritos e ancestrais), é lido pelos historiadores como xamanismo.

Mil servas a atendiam, e um único homem entrava no palácio para servir comida e levar recados. Um irmão mais novo cuidava do governo. O palácio tinha torres de vigia e paliçada, com guardas armados em volta.

Uma soberana que governava sem ser vista.

A crônica registra também a saída de cena. Em 247, Himiko pediu ajuda à China numa guerra contra o reino vizinho de Kuna. Pouco depois ela morreu, e o texto descreve um grande túmulo em montículo, com cem passos de diâmetro, e cem servos enterrados com ela.

Um rei assumiu, o país voltou à guerra e só se acalmou quando uma parente de Himiko, Iyo, de 13 anos, subiu ao trono. O Livro de Jin, história oficial da dinastia seguinte, registra uma embaixada de Wa em 266, provavelmente enviada por ela. Depois, os textos chineses silenciam sobre o arquipélago por quase 150 anos.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Duas planícies para uma só rainha

A disputa sobre Yamatai tem dois campos com endereço fixo. Um põe o reino no norte de Kyushu, perto da Coreia; o outro, em Kinai (a planície em volta de Nara e Osaka), no centro de Honshu, a ilha principal.

A sonoridade ajuda o segundo campo. Yamatai soa como Yamato, a antiga província de Nara onde a dinastia imperial se firmou. Em 1910, o sinólogo Naitō Konan, da Universidade Imperial de Kyoto, defendeu Kinai; no mesmo ano, o historiador Shiratori Kurakichi, da Universidade Imperial de Tóquio, defendeu Kyushu. A briga virou rivalidade entre as duas escolas.

O argumento de Kyushu

Os defensores de Kyushu leem a rota pelas distâncias. Os portos citados na crônica, como Matsuro e Ito, correspondem a lugares conhecidos do norte da ilha, e Yamatai estaria perto deles. Para esse campo, o erro chinês está nos dias de viagem, inflados por enviados que talvez nem tenham chegado à rainha.

O sítio de Yoshinogari, na província de Saga, deu corpo à tese. Escavado pela prefeitura de Saga desde 1986, ele revelou uma aldeia do período Yayoi (a fase do arroz irrigado e do metal, que vai até o século 3) com fosso duplo, paliçada e torres de vigia, desenho parecido com o palácio da crônica.

O argumento de Nara

O campo de Kinai corrige a direção. Se o cronista confundiu sul com leste, os dias de barco levam pelo mar interior até a planície de Nara. Em Makimuku, na borda leste dessa planície, o conselho de educação da cidade de Sakurai achou em 2009 as fundações de um grande edifício do século 3, alinhado com outros menores num eixo leste e oeste.

Ao lado fica o Hashihaka, um kofun (túmulo em montículo) em forma de buraco de fechadura, um dos maiores e mais antigos do Japão. Em 2009, o Museu Nacional de História Japonesa datou por radiocarbono a cerâmica do fosso do túmulo entre 240 e 260. A janela coincide com os anos em que a crônica põe o fim de Himiko.

Cada campo corrige a crônica num ponto diferente.

Os espelhos entram nas duas contas. Em Kinai aparecem em grande quantidade os sankakubuchi shinjūkyō (espelhos de borda triangular com deuses e animais), e alguns trazem a data da era Jingchu. Em 1998, o túmulo de Kurozuka, na província de Nara, rendeu 33 deles, segundo o Instituto Arqueológico de Kashihara.

O problema: nenhum espelho desse tipo foi achado na China. Para parte dos pesquisadores, eles foram feitos no Japão, talvez por artesãos chineses, e não servem de prova do presente dos Wei. Em Kyushu, os túmulos do século 3 guardam espelhos de origem chinesa segura, mas em menor número e sem data de reinado.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O selo de ouro que nunca apareceu

A prova que encerraria a disputa tem forma conhecida: o selo de ouro que o imperador Wei mandou a Himiko. A China registrava cada selo concedido a reis estrangeiros, e um deles já apareceu em solo japonês.

Em 1784, um lavrador da ilha de Shikanoshima, na baía de Fukuoka, achou um selo de ouro com a inscrição Rei de Na de Wa, vassalo dos Han, concedido em 57 segundo o Livro dos Han Posteriores. A peça está hoje no Museu Municipal de Fukuoka e mostra que selos chineses chegavam ao arquipélago e resistiam séculos no chão.

O selo de Himiko nunca apareceu. Achado em Kyushu, daria razão a um campo; achado em Nara, ao outro. Sem ele, cada lado apoia a tese em indícios que o rival lê de outro jeito.

O túmulo fechado

A segunda lacuna é o Hashihaka. A Agência da Casa Imperial administra o túmulo como sepultura da princesa Yamato-totohi-momoso-hime, personagem do Nihon Shoki, e proíbe escavar o montículo. Os arqueólogos só trabalham nas bordas e no fosso.

Se Himiko está ali, a câmara funerária pode guardar espelhos, armas e, com sorte, o selo. Se a câmara guarda outra pessoa, a tese de Nara perde o melhor candidato a túmulo. Enquanto a proibição valer, a resposta fica embaixo da terra.

A melhor prova possível está sob um monte que ninguém pode abrir.

A terceira lacuna é o próprio texto. Chen Shou escreveu com base em relatórios de enviados, e a crônica não diz se algum deles chegou a Yamatai ou se parou nos portos de Kyushu e anotou o resto de ouvido. As distâncias podem ter vindo de informantes locais, em dias de viagem que nenhum chinês percorreu.

Somadas as três lacunas, a localização de Yamatai segue desconhecida: a rota chinesa tem erro certo e posição incerta, nenhum objeto com Himiko escrito foi achado no Japão, e o túmulo mais provável do lado de Nara está fechado por lei. Nenhum campo tem a peça que o rival aceitaria como prova.

Kyushu, onde estão os portos que a crônica nomeia e as paliçadas de Yoshinogari, ou Nara, onde o Hashihaka cabe na janela de 240 a 260. Para escolher, é preciso decidir em que Chen Shou errou: nas distâncias ou na direção.

 
 
 
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