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A disputa sobre Yamatai tem dois campos com endereço fixo. Um põe o reino no norte de Kyushu, perto da Coreia; o outro, em Kinai (a planície em volta de Nara e Osaka), no centro de Honshu, a ilha principal.
A sonoridade ajuda o segundo campo. Yamatai soa como Yamato, a antiga província de Nara onde a dinastia imperial se firmou. Em 1910, o sinólogo Naitō Konan, da Universidade Imperial de Kyoto, defendeu Kinai; no mesmo ano, o historiador Shiratori Kurakichi, da Universidade Imperial de Tóquio, defendeu Kyushu. A briga virou rivalidade entre as duas escolas.
O argumento de Kyushu
Os defensores de Kyushu leem a rota pelas distâncias. Os portos citados na crônica, como Matsuro e Ito, correspondem a lugares conhecidos do norte da ilha, e Yamatai estaria perto deles. Para esse campo, o erro chinês está nos dias de viagem, inflados por enviados que talvez nem tenham chegado à rainha.
O sítio de Yoshinogari, na província de Saga, deu corpo à tese. Escavado pela prefeitura de Saga desde 1986, ele revelou uma aldeia do período Yayoi (a fase do arroz irrigado e do metal, que vai até o século 3) com fosso duplo, paliçada e torres de vigia, desenho parecido com o palácio da crônica.
O argumento de Nara
O campo de Kinai corrige a direção. Se o cronista confundiu sul com leste, os dias de barco levam pelo mar interior até a planície de Nara. Em Makimuku, na borda leste dessa planície, o conselho de educação da cidade de Sakurai achou em 2009 as fundações de um grande edifício do século 3, alinhado com outros menores num eixo leste e oeste.
Ao lado fica o Hashihaka, um kofun (túmulo em montículo) em forma de buraco de fechadura, um dos maiores e mais antigos do Japão. Em 2009, o Museu Nacional de História Japonesa datou por radiocarbono a cerâmica do fosso do túmulo entre 240 e 260. A janela coincide com os anos em que a crônica põe o fim de Himiko.
Cada campo corrige a crônica num ponto diferente. |
Os espelhos entram nas duas contas. Em Kinai aparecem em grande quantidade os sankakubuchi shinjūkyō (espelhos de borda triangular com deuses e animais), e alguns trazem a data da era Jingchu. Em 1998, o túmulo de Kurozuka, na província de Nara, rendeu 33 deles, segundo o Instituto Arqueológico de Kashihara.
O problema: nenhum espelho desse tipo foi achado na China. Para parte dos pesquisadores, eles foram feitos no Japão, talvez por artesãos chineses, e não servem de prova do presente dos Wei. Em Kyushu, os túmulos do século 3 guardam espelhos de origem chinesa segura, mas em menor número e sem data de reinado.
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A prova que encerraria a disputa tem forma conhecida: o selo de ouro que o imperador Wei mandou a Himiko. A China registrava cada selo concedido a reis estrangeiros, e um deles já apareceu em solo japonês.
Em 1784, um lavrador da ilha de Shikanoshima, na baía de Fukuoka, achou um selo de ouro com a inscrição Rei de Na de Wa, vassalo dos Han, concedido em 57 segundo o Livro dos Han Posteriores. A peça está hoje no Museu Municipal de Fukuoka e mostra que selos chineses chegavam ao arquipélago e resistiam séculos no chão.
O selo de Himiko nunca apareceu. Achado em Kyushu, daria razão a um campo; achado em Nara, ao outro. Sem ele, cada lado apoia a tese em indícios que o rival lê de outro jeito.
O túmulo fechado
A segunda lacuna é o Hashihaka. A Agência da Casa Imperial administra o túmulo como sepultura da princesa Yamato-totohi-momoso-hime, personagem do Nihon Shoki, e proíbe escavar o montículo. Os arqueólogos só trabalham nas bordas e no fosso.
Se Himiko está ali, a câmara funerária pode guardar espelhos, armas e, com sorte, o selo. Se a câmara guarda outra pessoa, a tese de Nara perde o melhor candidato a túmulo. Enquanto a proibição valer, a resposta fica embaixo da terra.
A melhor prova possível está sob um monte que ninguém pode abrir. |
A terceira lacuna é o próprio texto. Chen Shou escreveu com base em relatórios de enviados, e a crônica não diz se algum deles chegou a Yamatai ou se parou nos portos de Kyushu e anotou o resto de ouvido. As distâncias podem ter vindo de informantes locais, em dias de viagem que nenhum chinês percorreu.
Somadas as três lacunas, a localização de Yamatai segue desconhecida: a rota chinesa tem erro certo e posição incerta, nenhum objeto com Himiko escrito foi achado no Japão, e o túmulo mais provável do lado de Nara está fechado por lei. Nenhum campo tem a peça que o rival aceitaria como prova.
Kyushu, onde estão os portos que a crônica nomeia e as paliçadas de Yoshinogari, ou Nara, onde o Hashihaka cabe na janela de 240 a 260. Para escolher, é preciso decidir em que Chen Shou errou: nas distâncias ou na direção.
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