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ED 088

Os 800 esqueletos que o degelo devolve a 5.029 metros

Num lago raso do Himalaia indiano, centenas de ossadas afloram quando o gelo recua, e a genética separou os corpos por cerca de mil anos.

Uma mesa de exame de madeira numa tenda de campo à noite, com uma sandália de couro rachada, um fragmento de cajado de bambu lascado, uma ponta de lança de ferro corroída, três pulseiras de vidro numa cuba rasa, o mapa desenhado à mão de um pequeno lago alpino com a margem traçada a tinta, um gráfico impresso de radiocarbono com dois blocos de datas separados, quatro tubos de amostra num suporte de madeira e um paquímetro sobre o mapa, tudo sob luz âmbar focal

O lago raso que abre poucas semanas por ano

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: em 1942, um guarda florestal britânico subiu até Roopkund, um lago raso a 5.029 metros no Himalaia indiano, e achou centenas de esqueletos na água do degelo.

Registro: as estimativas chegam a oitocentas pessoas, e vários crânios trazem fraturas arredondadas, compatíveis com granizo do tamanho de bola de críquete.

Anomalia: um estudo genético de 2019 leu 38 indivíduos e achou três ancestralidades distintas, incluindo gente do Mediterrâneo oriental, separadas por cerca de mil anos.

Acima de cinco mil metros de altitude, o ar entrega perto da metade do oxigênio que existe no nível do mar. Uma noite de agosto no alto Garhwal, no norte da Índia, cai abaixo de zero mesmo no auge do verão, e a neve fecha o caminho durante a maior parte do ano.

Não existe aldeia permanente naquela faixa. O último povoado com casa, lavoura e rebanho fica dias de caminhada abaixo, e tudo que sobe vai carregado nas costas de gente ou de mula, por trilha estreita de pedra solta.

O frio, em compensação, é um bom arquivista. Pele, cabelo, unha e couro somem em uma estação num vale quente. Na altitude, com pouca bactéria, pouco oxigênio e temperatura baixa quase o ano inteiro, o mesmo material atravessa séculos ainda reconhecível.

A aritmética do lugar é o que incomoda. Levar oitocentas pessoas até uma altitude dessas exige comida, rota conhecida, motivo forte e alguma organização. É um contingente maior do que a população de muitos vilarejos da região, reunido num ponto onde ninguém tinha o que fazer por mais de um dia.

O lago que guarda o caso é pequeno e raso, cerca de quarenta metros de ponta a ponta e no máximo dois metros de profundidade. Fica congelado quase o ano inteiro e abre por poucas semanas, quando a neve recua e a água escura mostra o que estava embaixo.

A janela curta também estraga o registro. A água mexe o material de lugar a cada degelo, a avalanche empurra pedra encosta abaixo, e décadas de visitantes levaram peças na mochila. O sítio chegou à ciência já embaralhado, sem camada e sem contexto de escavação.

O que sobrou de sólido veio em duas levas separadas por quase oitenta anos: o que apareceu na superfície da água a partir de 1942 e o que o laboratório conseguiu ler dentro do osso em 2019.

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I  O Registro

O relatório de 1942 e a contagem que veio depois

O nome do lugar é Roopkund. Fica no distrito de Chamoli, no estado indiano de Uttarakhand, encravado numa depressão a 5.029 metros, ao pé do Trisul, montanha que passa dos sete mil.

Em 1942, o guarda florestal H. K. Madhwal, a serviço da administração britânica, subiu até o lago em ronda pela reserva de caça de Nanda Devi. O gelo tinha recuado e a água rasa estava tomada por esqueletos.

A Segunda Guerra corria, e a primeira suspeita foi militar: uma coluna japonesa tentando cruzar a fronteira norte. A checagem afastou a hipótese em pouco tempo, porque o material era antigo demais para caber na guerra.

As estimativas variam de trezentas a oitocentas pessoas. O estudo mais recente trabalha com um intervalo de seiscentos a oitocentos indivíduos, contados a partir de ossos avulsos, e não de corpos inteiros.

A conservação surpreende quem chega. Em parte do material ainda há tecido mole aderido, cabelo e unha, coisa que a altitude e o frio seguraram por séculos.

Junto do osso apareceram objetos simples. Sandálias e outras peças de couro, cajados de bambu, pontas de ferro, anéis e pulseiras de vidro. Nada de moeda, nada de carga de comércio, nada de acampamento na margem.

Em 2004, uma expedição de pesquisadores indianos com apoio da National Geographic levou amostras para datação e exame osteológico. O radiocarbono apontou para o século IX, por volta do ano 850.

O exame dos crânios devolveu o detalhe que ficou famoso. Vários apresentavam fraturas curtas e arredondadas, concentradas no topo da cabeça e nos ombros, sem lesão correspondente no resto do esqueleto.

O padrão sugere golpe vindo de cima, de objeto redondo e pesado. O osteólogo Subhash Walimbe comparou o tamanho provável do projétil ao de uma bola de críquete, o que na prática significa granizo.

A leitura casou com uma canção antiga do Garhwal. As mulheres da região cantam a história do rei Jasdhaval, de Kanauj, que teria subido a serra em cortejo com a rainha grávida e dançarinas, atraindo a fúria da deusa Nanda Devi, respondida com granizo de ferro.

A rota reforçava a versão. A cada doze anos, a peregrinação Nanda Devi Raj Jat leva milhares de pessoas por um trajeto que passa perto do lago, numa jornada de semanas em terreno alto.

Um lago de quarenta metros de ponta a ponta e dois de fundo, aberto poucas semanas por ano, com até oitocentas pessoas dentro, sem aldeia, sem rota comercial e sem uma linha escrita.

Sobre um conjunto assim, lago sazonal, ossada solta, objeto simples e uma canção, a explicação da tempestade única se sustentou por décadas. Até o osso ser lido por dentro.

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II  A Pergunta em Aberto

Uma tempestade não cobre mil anos

A pergunta deixou de ser quem eram aquelas pessoas em bloco. Passou a ser quantos grupos diferentes o mesmo lago recebeu, e por que cada um deles subiu até lá.

Em 2019, um estudo publicado na revista Nature Communications recuperou DNA de trinta e oito indivíduos de Roopkund, coordenado por Éadaoin Harney, com Niraj Rai, Kumarasamy Thangaraj e David Reich entre os autores.

O resultado quebrou o conjunto em três. Vinte e três pessoas tinham ancestralidade do sul da Ásia, e nem entre elas havia uniformidade: os perfis variavam como variam populações de regiões diferentes do subcontinente.

Catorze pessoas tinham ancestralidade do Mediterrâneo oriental, mais próxima das populações atuais de Creta e da Grécia continental, sem a mistura que apareceria em quem tivesse gerações de convivência na Índia.

Uma única pessoa tinha ancestralidade do leste ou do sudeste asiático, isolada nos dois conjuntos maiores.

A datação amarrou o golpe no argumento antigo.

Os esqueletos de Roopkund pertencem a três grupos geneticamente distintos, depositados em múltiplos eventos separados por cerca de mil anos.

Éadaoin Harney e colegas, Nature Communications, 2019

O grupo do sul da Ásia ficou entre os séculos VII e X, compatível com a datação de 2004. O grupo do Mediterrâneo oriental e a pessoa de ancestralidade asiática caíram entre os séculos XVII e XX.

A química do osso reforçou a separação. A análise de isótopos indicou dieta sem milheto no grupo mediterrâneo, cereal comum no sul da Ásia, o que aponta para gente criada longe dali.

Uma tempestade de granizo, por mais brutal, não explica um depósito montado em pelo menos dois momentos com mil anos de intervalo. A catástrofe única saiu de cena como explicação geral do sítio.

Sobraram duas perguntas, e as duas ficaram maiores. A primeira é o que levou centenas de pessoas do sul da Ásia, de origens variadas, a um ponto sem povoado, em número que sugere movimento coletivo.

A peregrinação continua sendo a resposta mais econômica para a leva antiga, e mesmo ela segue sem prova. Não existe documento do século IX descrevendo o trajeto, e a canção do rei Jasdhaval é tradição oral, sem data segura e sem versão fixa.

A segunda pergunta é mais dura. Um grupo de mais de dez pessoas com ascendência do Mediterrâneo oriental chegou a 5.029 metros no Himalaia indiano num período de história documentada, com arquivo colonial, registro de porto e imprensa em circulação.

Nenhum desses arquivos guarda o episódio. Não há relato conhecido de um grupo vindo do Mediterrâneo perdido no alto Garhwal, e a lacuna pesa justamente porque o período era anotado.

As leituras possíveis para a leva recente são poucas e frágeis: viajantes em travessia, gente ligada a alguma expedição de campo, ou uma comunidade de origem mediterrânea vivendo na Índia sem se misturar à população local. A genética torce contra a terceira, porque quem vive gerações num lugar carrega a mistura no genoma.

 
 

III  O Que Falta Provar

As medidas que o lago ainda aceita

O que está firme é curto: a altitude, o tamanho do lago, a ordem de grandeza do número de pessoas, três ancestralidades distintas no mesmo depósito e dois blocos de datas separados por cerca de mil anos.

O que segue aberto é a causa, e ela virou plural. Cada leva precisa da própria explicação, e nenhuma das duas está fechada.

A primeira medida é ampliar a amostra. Trinta e oito indivíduos com dado genético é pouco diante de seiscentos a oitocentos, e cada rodada nova pode acrescentar um quarto grupo ou uma data que preencha o vão de mil anos.

A segunda é datar caso a caso, com radiocarbono individual em série longa. Só a distribuição das datas diz se houve dois episódios, cinco ou trinta, e a diferença entre um acidente coletivo e um lugar usado de novo está inteira nessa curva.

A terceira é refazer a leitura do trauma com método atual. As fraturas arredondadas foram descritas num conjunto limitado de crânios, e tomografia e microscopia separam melhor a fratura ocorrida em vida do dano que veio depois, com queda de pedra e transporte pela água.

A quarta é medir estrôncio e oxigênio dente por dente. Os dois isótopos registram a água e o solo onde a pessoa passou a infância, e dizem de que região do Mediterrâneo, ou de que parte da Índia, cada indivíduo saiu.

A quinta é a triagem biológica ampla, e ela já começou a devolver resultado.

A varredura de DNA bacteriano nos indivíduos analisados não devolveu evidência de um patógeno comum ao grupo.

Éadaoin Harney e colegas, Nature Communications, 2019

O achado afasta a explicação de epidemia com o material examinado até agora, e mantém em pé as causas ambientais e as causas humanas, que ninguém conseguiu distinguir no osso.

A sexta é arquivo, e é a mais barata. Do século XVII ao XX é tempo de papel: registro de porto, livro de companhia de comércio, correspondência missionária, imprensa local. Um grupo europeu que se perde em altitude deixa rastro em algum desses lugares.

Falta ainda proteger o que sobrou. O sítio não tem guarda permanente, o trajeto virou atrativo de trekking, e osso continua saindo dali na mochila de visitante, o que reduz o material disponível para exame.

A assimetria ficou maior depois de 2019. Antes faltava a causa de uma tragédia única. Agora sabe-se que houve mais de um episódio, de onde vinham as pessoas de cada leva e quando cada leva chegou.

O que ninguém tem é o motivo de nenhuma delas. O lago continua congelado a maior parte do ano, e por poucas semanas de verão a água rasa segue devolvendo osso que ninguém consegue explicar.

 
 
 
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