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ED 133

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As 500 estátuas de pedra de San Agustín, na Colômbia

Um povo sem escrita esculpiu figuras com presas de onça sobre os túmulos dos seus chefes e saiu de cena antes da chegada dos espanhóis

Estátua de pedra com presas de felino sobre um túmulo em San Agustín

Estátua com presas de felino, alto Magdalena

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: cerca de 500 estátuas de pedra guardam túmulos no sul da Colômbia.

Registro: em 1757, um frade espanhol achou as figuras no meio do mato.

Anomalia: o povo que as esculpiu não deixou nome nem escrita.

Em 1995, a UNESCO inscreveu o Parque Arqueológico de San Agustín como o maior conjunto de monumentos religiosos e esculturas megalíticas da América do Sul. Em 1757, o frade espanhol Juan de Santa Gertrudis encontrou as mesmas figuras cobertas de mato, e ninguém na região soube dizer quem as tinha feito.

O maior acervo de pedra esculpida do continente, sem o nome de quem o esculpiu.

O lugar fica no departamento de Huila, no sul da Colômbia, onde nasce o rio Magdalena. Ali as cordilheiras dos Andes se abrem em três, e o terreno é de colinas verdes, cânions e chuva quase o ano inteiro, a cerca de 1.700 metros de altitude.

Espalhadas por essas colinas, numa área de mais de 500 quilômetros quadrados, estão as estátuas. O Instituto Colombiano de Antropologia e História (ICANH), que administra o parque, conta perto de 500 peças de pedra vulcânica, das pequenas, de meio metro, às que passam da altura de um homem.

Muitas têm presas de felino saindo da boca. Outras seguram cobras, bebês, bastões ou pássaros. Algumas carregam nas costas um segundo ser, um animal agarrado à cabeça do primeiro, como uma sombra esculpida.

Elas não estão soltas na paisagem. A maioria fica sobre montículos funerários, morros artificiais de terra que cobrem câmaras de laje de pedra, e guarda a entrada da tumba como uma sentinela.

Segundo a UNESCO, o grosso da escultura foi feito entre os séculos I e VIII da nossa era. Quando o espanhol Sebastián de Belalcázar cruzou o alto Magdalena, na década de 1530, os escultores já tinham deixado de esculpir havia séculos.

Não sobrou escrita, nome de rei nem relato do próprio povo. As respostas que existem vêm das tumbas, das estátuas e da terra em volta. A investigação começa pelo frade que as descreveu e pelos arqueólogos que abriram as primeiras covas.

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I  O Registro

I, O frade, o alemão e as tumbas de laje

O primeiro registro escrito das estátuas de San Agustín é de frei Juan de Santa Gertrudis, franciscano nascido em Maiorca. Ele passou pela região em 1757 e descreveu as figuras no livro Maravillas de la naturaleza (Maravilhas da natureza), que ficou em manuscrito e só foi impresso no século XX.

O frade achou que as estátuas eram obra do diabo ou de gente muito antiga, e anotou que os moradores escavavam os montículos atrás de ouro. A caça ao tesouro já tinha começado antes de qualquer estudo.

Em 1797, o naturalista colombiano Francisco José de Caldas visitou o lugar e desenhou algumas peças. Durante o século XIX, viajantes passaram, mediram e levaram fragmentos, sem cavar de forma sistemática.

O alemão que cavou primeiro

A primeira escavação com método veio com o etnólogo alemão Konrad Theodor Preuss, do Museu de Etnologia de Berlim. Ele trabalhou em San Agustín entre 1913 e 1914, abriu montículos, fotografou dezenas de estátuas e publicou o estudo em 1929.

Preuss também embarcou peças para a Alemanha. Parte das estátuas que ele levou continua em Berlim, e a Colômbia pede o retorno delas.

As escavações colombianas vieram depois. O arqueólogo Luis Duque Gómez, a partir dos anos 1940, e o antropólogo Gerardo Reichel-Dolmatoff, com o livro San Agustín: A Culture of Colombia (San Agustín: uma cultura da Colômbia), de 1972, montaram o retrato que se usa até agora.

O que as covas mostram

Dentro dos montículos, os arqueólogos acharam câmaras de lajes de pedra, algumas com sarcófagos escavados num só bloco. A estátua fica na frente ou dentro da câmara, virada para quem chega.

Os ossos quase não sobreviveram. O solo ácido e a chuva constante da região dissolveram a maior parte dos esqueletos, e muitas tumbas chegaram vazias aos arqueólogos, esvaziadas pelos caçadores de ouro.

Algumas estátuas guardam restos de pintura vermelha, amarela e preta, segundo os registros do ICANH na Mesita B, uma das áreas do parque. As figuras que hoje são cinzentas já foram coloridas.

A estátua não era enfeite. Era parte da tumba.

Numa encosta do parque, a Fuente de Lavapatas (Fonte do Lava-Pés) completa o quadro: o leito de pedra de um riacho foi esculpido com canais, piscinas, lagartos e cobras. A água corria pelos desenhos, e o uso ritual é a leitura mais aceita.

Com tumbas, estátuas e um riacho entalhado, o registro mostra um povo que gastou gerações em pedra e em morte. Falta saber quem mandava nesse trabalho, e para quê.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Presas de onça sobre a cova do chefe

A resposta que os arqueólogos dão para quem mandava vem do levantamento regional de Robert Drennan, da Universidade de Pittsburgh. Nos anos 1990, a equipe dele percorreu o alto Magdalena recolhendo cacos de cerâmica em milhares de pontos, para mapear onde as pessoas moravam em cada época.

O retrato publicado por Drennan em 2000 mostra uma população espalhada em sítios pequenos, sem cidades, reunida em torno de alguns centros. As tumbas com estátuas ficam nesses centros, perto dos grupos de casas mais densos.

A leitura de Drennan é política. Cada centro teria um chefe, e a tumba monumental com a estátua mostrava a todos o poder da família dele, na vida e depois dela.

O que a onça fazia na pedra

As presas de felino pedem outra explicação. A onça-pintada é o maior predador da floresta sul-americana, e em muitos povos indígenas das terras baixas o xamã (curandeiro e sacerdote que fala com os espíritos) se transforma em onça durante o transe.

Reichel-Dolmatoff estudou povos vivos da Amazônia colombiana e ligou as presas de San Agustín a essa crença. A estátua com dentes de onça seria o chefe ou o xamã no momento da transformação, meio homem, meio fera.

As figuras com um segundo ser nas costas reforçam a ideia. Os arqueólogos chamam essas peças de doble yo (duplo eu, em espanhol): o animal sobre a cabeça do homem seria o espírito dele, o outro corpo que o acompanha.

Essa leitura tem base nos povos de hoje, e não num texto de San Agustín. Entre o século VIII e os povos que Reichel-Dolmatoff visitou há mil anos de distância e centenas de quilômetros de floresta.

Por que parar

O fim da escultura é o segundo enigma do caso. Drennan não encontrou sinal de guerra, fome ou desastre que marque o fim do período clássico, e a população da região não caiu depois dele.

As pessoas continuaram morando no alto Magdalena. O que mudou foi o costume: as tumbas monumentais e as estátuas deixaram de ser feitas, e a população se espalhou por mais pontos, sem centros de destaque.

A arqueologia registra a mudança, mas não o motivo. A leitura mais citada diz que os chefes perderam o poder de mobilizar gente para arrastar blocos de várias toneladas, e ninguém achou a prova que confirme ou derrube essa hipótese.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Os escultores sem descendentes

Quando os espanhóis chegaram, o alto Magdalena tinha moradores. Os cronistas do século XVI registraram povos que resistiram à conquista na região, e nenhum deles aparece nas fontes como dono ou herdeiro das estátuas.

O nome que se usa hoje, San Agustín, é o da cidade colonial fundada perto das ruínas. O povo que fez as estátuas não tem nome próprio em lugar algum: os arqueólogos chamam de cultura de San Agustín por falta de outro.

A língua também se perdeu. Sem escrita, sem relato e sem descendente conhecido, não há como saber como aquele povo chamava a si mesmo, os seus chefes ou as figuras de pedra.

O intervalo pesa. Entre a última estátua, no século VIII, e a passagem de Belalcázar, na década de 1530, correram cerca de oito séculos. Nesse tempo, quem vivia no vale pode ter mudado de língua, de costume e de memória, e a lembrança dos escultores se apagou sem deixar marca que alguém tenha achado.

O que a pedra ainda pode dizer

Três provas faltam para fechar o caso. A primeira é o DNA antigo, que exige ossos, e o solo ácido destruiu quase todos. Um esqueleto bem conservado diria se os escultores são ancestrais dos povos indígenas atuais da região.

A segunda é a datação de cada estátua. As peças são datadas pelas tumbas em que estão, e não pela pedra em si, e várias foram tiradas do lugar original por caçadores de tesouro antes de qualquer registro. Sem o contexto, não se sabe qual veio primeiro.

A terceira é um centro intacto. Boa parte dos montículos conhecidos foi saqueada nos séculos XVIII e XIX, e uma tumba fechada, com ossos, oferendas e estátua no lugar, responderia de uma vez perguntas que as outras não respondem mais.

Um povo que fez 500 estátuas e não deixou o próprio nome.

A procura continua. A região tem montículos ainda não escavados, e o ICANH segue trabalhando no parque e nos sítios vizinhos, o Alto de los Ídolos (Colina dos Ídolos) e o Alto de las Piedras (Colina das Pedras).

Até lá, as figuras seguem de pé sobre as tumbas vazias, com as presas à mostra, guardando chefes cujo nome ninguém consegue ler.

Um povo de chefes que usou a pedra para mostrar poder e parou quando o poder se espalhou, como lê Drennan, ou um povo de xamãs que esculpiu a própria transformação em onça, como lê Reichel-Dolmatoff. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá aos mapas de cerâmica ou às presas na pedra.

 
 
 
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