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ED 111
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A serpente de 411 metros que não guarda ninguém

Nenhuma sepultura dentro da figura em Adams County, e duas datações de radiocarbono do mesmo aterro separadas por mais de mil anos

Uma bancada de levantamento à noite com a planta topográfica de um aterro serpentiforme aberta sobre a mesa, uma impressão de relevo sombreado do esporão arborizado em pé, frascos de vidro com fragmentos de carvão etiquetados sobre feltro preto, um desenho de perfil de solo com as camadas estratigráficas e tubos de testemunho num suporte, sob luz âmbar focal

O aterro em espiral sob luz rasante

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: Ephraim Squier e Edwin Davis publicaram em 1848, no primeiro volume do Smithsonian, o levantamento de um aterro em forma de serpente sobre um esporão de rocha em Adams County, Ohio.

Registro: a figura tem cerca de 411 metros de comprimento seguindo as curvas, entre 30 e 40 centímetros de altura na maior parte do traçado, e as escavações de Frederic Ward Putnam, entre 1887 e 1889, não encontraram sepultamento nenhum dentro do corpo do aterro.

Anomalia: o carvão recolhido em 1996 por Robert Fletcher, Terry Cameron e Bradley Lepper devolveu idades em torno de 1070 d.C., e o carvão recolhido em 2014 pela equipe de William Romain devolveu cerca de 300 a.C. para o mesmo monumento.

O carvão retirado do interior do aterro do Serpent Mound em 1996 devolveu idades em torno de 1070 d.C., num artigo assinado por Robert Fletcher, Terry Cameron e Bradley Lepper na revista Geoarchaeology naquele mesmo ano. O carvão retirado do mesmo aterro em 2014, pela equipe de William Romain, devolveu cerca de 300 a.C., publicado no Journal of Archaeological Science: Reports em 2015.

Mil e trezentos anos separam as duas leituras do mesmo monte de terra. As duas usaram radiocarbono, as duas passaram por revisão de pares, as duas descrevem amostras coletadas de dentro da estrutura, e nenhuma delas foi retirada pelos autores da outra.

A diferença cai em cima de qual população construiu o traçado. A data de 1070 d.C. coloca a figura na mão dos grupos Fort Ancient, contemporâneos das aldeias agrícolas do vale do Ohio. A data de 300 a.C. a devolve aos Adena, mil anos antes, os mesmos que ergueram os montículos cônicos de sepultamento espalhados pela região.

O aterro não ajuda a decidir. Ele tem cerca de 411 metros de comprimento acompanhando as curvas, o corpo se enrola em três voltas e termina numa espiral fechada, a cabeça se abre num traçado oval, e a altura mal passa de 30 a 40 centímetros na maior parte do percurso.

Falta ali o que costuma datar um sítio. Frederic Ward Putnam abriu trincheiras na figura entre 1887 e 1889 pelo Museu Peabody, da Universidade Harvard, e não achou sepultamento nenhum dentro do corpo do aterro, nem enxoval, nem depósito votivo, nem câmara.

Os corpos estão fora do desenho. No mesmo esporão de rocha existem montículos cônicos de sepultamento e restos de aldeia, escavados desde o século XIX, e é deles que vem quase todo o material datável do lugar, não da serpente.

O chão embaixo também é anômalo. A figura foi construída sobre uma estrutura geológica de rocha deformada, com camadas fraturadas e deslocadas, interpretada por levantamentos do Serviço Geológico de Ohio como cratera de impacto de centenas de milhões de anos.

O registro de hoje começa pelo que os levantamentos de campo mediram e pelo que as trincheiras do século XIX não acharam, antes de chegar à briga entre as duas datas.

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I  O Registro

I, Quatrocentos e onze metros sem uma sepultura

O desenho entrou na literatura antes da arqueologia moderna existir. Ephraim Squier e Edwin Davis levantaram o sítio com corrente e bússola e publicaram a planta em 1848 no primeiro volume das Smithsonian Contributions to Knowledge, com o traçado sinuoso sobre um esporão estreito de rocha acima do vale do riacho Brush, em Adams County, Ohio.

A medida que circula até hoje vem daquele tipo de trabalho de campo. Seguindo as curvas do corpo, o aterro tem cerca de 411 metros do fim da espiral até a ponta da cabeça, e é a maior figura zoomorfa de terra conhecida no mundo, embora quase invisível de perto: o relevo é baixo, largo e coberto de grama.

A construção é modesta em volume e exigente em traçado. A terra foi assentada sobre uma base de pedras e argila queimada em alguns trechos, o perfil é largo e achatado, e o esforço técnico do conjunto está menos no volume movido e mais em manter a linha coerente ao longo de mais de quatrocentos metros de topo irregular.

Putnam levou dois anos abrindo o interior. Entre 1887 e 1889, a pedido do Museu Peabody, ele escavou trincheiras transversais na figura e restaurou o perfil depois, e o relatório descreve terra assentada em camadas, sem nada dentro: sem ossos humanos, sem vasos depositados, sem estrutura funerária.

Não há vestígio de sepultamento no corpo da serpente, e a estrutura foi claramente erguida com outro propósito que não o de cobrir os mortos.

Frederic Ward Putnam, The Serpent Mound of Ohio, The Century Magazine, 1890

O contraste com o resto do platô é o dado forte. A poucas centenas de metros da figura existem montículos cônicos de sepultamento, de tipo Adena, e uma área com material de aldeia atribuído aos Fort Ancient, ambos escavados e ambos com material datável, o que faz do sítio um lugar ocupado em duas épocas muito distantes.

A orientação também foi medida. A cabeça aponta para o trecho do horizonte onde o Sol se põe no solstício de junho, e trabalhos de levantamento topográfico do próprio Romain e de outros pesquisadores propõem que as curvas do corpo marcam outros pontos do calendário solar e lunar, com precisão discutida caso a caso.

E o terreno tem uma história anterior a qualquer construtor. O esporão fica sobre uma zona de rocha fraturada e basculada, mapeada pelo Serviço Geológico de Ohio como estrutura de criptoexplosão e hoje interpretada como cratera de impacto muito antiga, o que dá ao lugar um relevo estranho, com paredões e um vale fechado ao redor.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Duas datas para o mesmo aterro

A briga começa com o que cada equipe amostrou. Fletcher, Cameron e Lepper coletaram fragmentos de carvão dentro do corpo do aterro em sondagens de 1991 e 1992, com o resultado publicado em 1996, e as idades calibradas caíram em torno do século XI, o que colocou a construção nas mãos dos Fort Ancient.

A leitura de 1996 fechava bem com o contexto arqueológico do platô. Havia ocupação Fort Ancient documentada no mesmo platô e havia, no mundo do século XI, um repertório de imagens de serpente e de mundo inferior reconhecível nas culturas do vale do Mississippi, o que dava contexto cultural para a figura.

A leitura de 2014 desmonta esse encaixe. A equipe de Romain e Edward Herrmann reabriu trincheiras e retirou carvão de camadas descritas como o corpo original do aterro, sob material que interpretaram como reparo posterior, e as idades calibradas apontaram para o quarto e o terceiro séculos antes da era comum.

Cada lado tem uma explicação para o carvão do outro. Para quem defende 300 a.C., o carvão do século XI vem de terra remexida em manutenções ou restaurações tardias, incluindo a própria intervenção do século XIX. Para quem defende 1070 d.C., o carvão antigo é material do solo anterior à obra, queimado séculos antes e incorporado à terra usada na construção.

O problema de fundo é o que o carvão data. Um fragmento datado dá a idade da madeira queimada, não a idade da mão que empilhou a terra em volta, e num aterro baixo, escavado e reconstruído várias vezes desde 1887, ligar uma amostra a um evento construtivo depende inteiramente da leitura estratigráfica de quem estava na trincheira.

O sítio piorou essa leitura por conta própria. Putnam recompôs o perfil da figura depois de escavar, houve trabalhos de restauração e drenagem no século XX, e cada uma dessas obras moveu terra do próprio monumento de um lugar para outro, misturando material de épocas diferentes no mesmo volume.

A falta de sepultamento também entra na conta. Um montículo Adena típico guarda sepultamentos e enxoval, e a serpente não guarda nada, o que serve de argumento tanto para quem diz que ela não é Adena quanto para quem diz que ela é Adena e simplesmente nunca foi feita para conter alguém.

E as duas datas nem precisam se excluir. Existe uma terceira leitura, defendida por parte dos pesquisadores do vale do Ohio, em que um traçado antigo foi reformado e ampliado mil anos depois, e nesse caso as duas séries de carvão estariam certas, cada uma medindo um episódio distinto da mesma figura.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O corte que falta sob a grama de Adams County

A primeira lacuna é de estratigrafia limpa. Nenhuma das séries de datas veio de um perfil intacto e amplamente documentado do aterro original, e um corte novo, longo, registrado camada por camada com micromorfologia de solo, é o que separaria terra assentada em obra de terra remexida em reparo.

A segunda é a quantidade de amostras. As duas leituras se apoiam em conjuntos pequenos de fragmentos, e um programa com dezenas de datas por trecho, distribuídas ao longo dos 411 metros e por altura dentro do perfil, mostraria se a figura inteira tem a mesma idade ou se cabeça, corpo e espiral foram erguidos em momentos diferentes.

A terceira é o solo enterrado embaixo da obra. A superfície que existia antes da primeira carga de terra guarda restos vegetais e microrresíduos com idade própria, e datar esse horizonte antigo dá um limite mínimo para a construção sem depender de carvão solto dentro do aterro.

A quarta é o mapa do subsolo. Levantamentos geofísicos de área total, com magnetometria e radar de penetração cobrindo o esporão inteiro, diriam se existem valas de fundação, estruturas de madeira ou depósitos ainda intactos sob a figura e ao redor dela, e onde exatamente vale a pena abrir a trincheira seguinte.

A quinta é o vínculo com os vizinhos. Os montículos cônicos e a área de aldeia do mesmo platô têm material datável e cronologia própria, e amarrar com precisão a ocupação de cada um deles diria qual das duas populações estava efetivamente no lugar quando a terra da serpente foi movida.

O caso tem duas leituras que o material sustenta por igual hoje. Ou a figura é Adena, erguida por volta de 300 a.C. por gente que também levantava montículos de sepultamento ali perto, e o carvão do século XI mede apenas reparos; ou a figura é Fort Ancient, erguida por volta de 1070 d.C., e o carvão antigo é lenha velha do próprio solo que a obra incorporou.

A escolha decide onde cavar e o que esperar achar. Aceitar a datação de 300 a.C. é procurar o solo enterrado sob a base e tratar cada camada de topo como manutenção tardia; aceitar a datação de 1070 d.C. é procurar valas e estruturas de construção do século XI e tratar o carvão antigo como sujeira herdada do terreno. As duas contas estão descritas acima.

 
 
 

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A datação de radiocarbono de 1996, feita por Fletcher, Cameron e Lepper no carvão do aterro, apontou a construção do Serpent Mound na mão de qual grupo?

AAdena
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DMississippiana

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