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O olho de ouro da Cidade Queimada, no Irã

Uma mulher de 1,82 metro foi enterrada com um olho de betume e ouro, numa cidade que ardeu três vezes e ficou vazia

Olho artificial de ouro sobre tijolo cru no deserto do Irã

Olho de betume e ouro, cerca de 2900 a.C.

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: uma mulher de 1,82 metro foi enterrada com um olho artificial.

Registro: em 2006, a equipe de Mansur Sajjadi abriu a cova 6705.

Anomalia: a cidade dela ardeu três vezes e foi abandonada.

A cova 6705 de Shahr-e Sukhteh (Cidade Queimada, em persa) guardava uma mulher de 1,82 metro com um olho de ouro na órbita esquerda, segundo o relatório da equipe de Mansur Sajjadi, do Centro de Pesquisa Arqueológica do Irã, em 2006. A cidade que a enterrou com esse cuidado pegou fogo três vezes e acabou vazia, segundo as camadas de cinza descritas pelo italiano Maurizio Tosi nos anos 1970.

Uma prótese fina, feita para durar, numa cidade que não durou.

O lugar fica no Sistão, a ponta leste do Irã, perto da cidade de Zabol e da fronteira com o Afeganistão. Hoje é planície de barro seco, varrida todo verão pelo vento dos 120 dias, que sopra do norte e cobre as ruínas de areia.

Há quase cinco mil anos, a paisagem era outra. O rio Helmand descia do Afeganistão e formava um delta de braços d'água que alimentava o lago Hamun. Nas margens cresceu uma cidade de tijolo cru, com bairros de casas, oficinas e um cemitério enorme a sudoeste.

Quando a UNESCO pôs o sítio na lista do Patrimônio Mundial, em 2014, o dossiê registrou uma área de 151 hectares, ocupada entre 3200 e 1800 a.C. Era um cruzamento de estradas da Idade do Bronze, a era em que se trabalhava o cobre e o bronze e ainda não o ferro.

Pelas oficinas passava lápis-lazúli, a pedra azul que vinha das minas de Badakhshan, no norte do Afeganistão. Os artesãos cortavam contas de pedra, teciam lã e faziam cerâmica pintada que aparece também em sítios do vale do Indo e da Mesopotâmia.

A mulher da cova 6705 viveu nesse movimento. Tinha entre 25 e 30 anos, segundo a análise do esqueleto feita pela equipe de Sajjadi, e foi enterrada com cerâmica e um espelho de bronze. A peça na órbita esquerda é o que a separa das outras sepulturas.

Ninguém sabe o nome dela, a língua que falava nem o ofício que tinha. A cidade não deixou escrita que alguém consiga ler, e as respostas que existem vêm do corpo, da cova e do objeto. A investigação começa pelo dia em que a cova foi aberta e pelo que a prótese revelou quando foi limpa.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, A cova 6705 e o globo de betume

O SÍTIO

Ruínas de tijolo cru de Shahr-e Sukhteh, na planície seca do Sistão, leste do Irã, perto da fronteira com o Afeganistão.

Ruínas de tijolo cru de Shahr-e Sukhteh, na planície seca do Sistão, leste do Irã, perto da fronteira com o Afeganistão.

Foto: Saeedrahdari (سعید راهداری), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Em dezembro de 2006, os arqueólogos da missão iraniana abriram a cova 6705 no grande cemitério de Shahr-e Sukhteh. O esqueleto estava deitado de lado, com as pernas dobradas, a posição comum nos enterros da cidade.

Na órbita esquerda havia uma esfera pouco maior que uma bola de gude. Mansur Sajjadi, diretor da escavação, anunciou a peça à agência iraniana de patrimônio cultural, que divulgou o achado em dezembro de 2006 com a datação da cova entre 2900 e 2800 a.C.

A equipe descreveu o material. O miolo é de betume, o piche natural que brota do solo em várias regiões do Irã, misturado com gordura animal para ganhar liga. Por cima, uma camada fina de ouro cobre a superfície inteira.

No centro, um círculo gravado marca a pupila. Dele saem linhas finas em raio, como os traços de uma íris ou os raios de um sol. Nas laterais, dois furos pequenos serviam para passar um fio de ouro que prendia a peça na cabeça.

O que a órbita guardava

O esqueleto contou o resto. Segundo o relatório de Sajjadi, a pálpebra deixou marcas no crânio e havia sinais de um abscesso, a inflamação com pus causada pelo atrito contínuo entre a peça e o tecido vivo.

A mulher usou o olho em vida, e por anos, até a pele reagir.

O detalhe muda a leitura do objeto. Uma peça feita só para o enterro não deixaria marca de uso. Esta ficou na cabeça de uma pessoa viva, visível para quem falava com ela, brilhando em ouro no lugar do olho que faltava.

A causa da perda também não aparece. O relatório não aponta ferimento nem doença no crânio que explique a órbita vazia, e o osso sozinho não guarda a resposta.

A altura dela chamou atenção à parte. Com 1,82 metro, a mulher era bem mais alta que a média das ossadas da cidade. A equipe levantou a hipótese de que ela viesse de fora, talvez do sul da Arábia, mas nenhuma análise de DNA publicada confirmou a origem.

Sobra a pergunta que o objeto impõe: por que uma cidade de artesãos gastou betume, ouro e horas de gravação num olho que não enxergava.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Um olho que não enxergava

A resposta mais simples é a aparência. Um rosto com a órbita vazia chama atenção, e uma peça que preenche o buraco devolve a forma do rosto. Próteses com essa função existem em outros povos antigos, feitas de pedra, argila ou vidro.

O ouro complica a explicação. Um olho de betume pintado bastaria para esconder a falta. O ouro, que vinha de longe e custava caro, faz o olho brilhar e chama o olhar de quem está diante dela, o contrário de esconder.

Daí nasceu a leitura mais repetida nos jornais desde 2006: a de que a mulher seria uma sacerdotisa ou vidente, e o olho dourado, um sinal de quem enxerga o que os outros não veem. Os raios gravados em volta da pupila, parecidos com os de um sol, alimentam a ideia.

Essa leitura não tem prova direta. Nada na cova 6705 descreve a função dela, e a cidade não deixou textos sobre sacerdotes. A hipótese nasce do brilho do objeto, não de um registro.

Uma cidade de mãos finas

O que se sabe é que a Cidade Queimada tinha artesãos capazes de uma peça assim. No cemitério, a equipe de Sajjadi encontrou o crânio de uma menina de cerca de 13 anos com uma abertura retangular feita a instrumento, uma trepanação (cirurgia que corta o osso do crânio), e com sinais de cicatrização.

Na mesma necrópole saiu um tabuleiro de jogo com 60 peças e dois dados, que a imprensa iraniana logo comparou ao gamão. E saiu um copo de barro com cinco desenhos de uma cabra, cada um num passo do salto: girando o copo, o bicho parece se mover até alcançar as folhas de uma árvore.

A precisão do olho cabe nesse quadro. Quem gravava raios de um milímetro em ouro e desenhava uma cabra em movimento tinha paciência e ferramenta para uma prótese sob medida.

Ouro de longe

Falta explicar o caminho do material. Não há minas de ouro conhecidas no delta do Helmand, e o metal precisou chegar por troca, pelas mesmas estradas que traziam o lápis-lazúli de Badakhshan.

O betume tem origem igualmente incerta. Nenhuma análise publicada ligou a massa do olho a uma jazida específica, e sem esse teste ninguém sabe se a peça foi feita na cidade ou chegou pronta com a dona.

Por isso a pergunta de por que ouro fica sem resposta fechada. Vaidade, cargo religioso ou simples riqueza de família explicam a escolha, e nenhuma das três aparece escrita em lugar algum.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Três incêndios e uma cidade vazia

O nome veio das cinzas. Maurizio Tosi, do Instituto Italiano para o Médio e o Extremo Oriente (IsMEO), escavou o sítio entre 1967 e 1978 e encontrou nas camadas de ocupação marcas de três grandes incêndios.

Tosi dividiu a vida da cidade em quatro períodos. Depois de cada fogo, os moradores reconstruíram por cima, e a cidade seguiu crescendo. No terceiro período ela atingiu o maior tamanho, e no quarto encolheu até sobrar pouca gente.

As causas dos três incêndios não estão estabelecidas. As camadas mostram o fogo, mas não mostram quem o acendeu: acidente em oficinas cheias de fornos, ataque de vizinhos ou queima deliberada ao abandonar um bairro. As escavações não acharam armas em quantidade nem esqueletos de uma batalha.

O abandono tem mais pistas. O dossiê da UNESCO situa o fim da ocupação perto de 1800 a.C. Nesse período, o Helmand mudou de curso, os braços do delta secaram e o lago Hamun recuou, deixando a cidade longe da água.

O rio que criou a cidade foi embora antes dela.

O que o cemitério ainda guarda

A escavação iraniana voltou ao sítio em 1997, sob Sajjadi, e concentrou o trabalho no cemitério. Pela conta do próprio Sajjadi, a necrópole de 25 hectares pode ter entre 25 mil e 40 mil covas, e só uma fração pequena foi aberta.

Três provas ainda faltam para o caso da mulher. A primeira é o DNA dela, que diria se veio de fora. A segunda é a análise química do betume e do ouro, que diria de onde vieram os materiais. A terceira é outra prótese na mesma necrópole, que diria se o olho foi peça única ou ofício de uma oficina.

Enquanto nenhuma chega, a peça fica sozinha: um olho que brilhou numa cabeça viva por anos, numa cidade que ardeu três vezes e que o rio deixou para trás.

Uma mulher estrangeira e rica, que pagou por um olho de ouro para ser vista de igual para igual, ou uma figura religiosa da própria cidade, cujo olho dourado dizia a todos que ela enxergava além. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá à altura dela ou aos raios gravados em volta da pupila.

 
 
 
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Segundo o relato da equipe de Mansur Sajjadi, o que provou que a mulher da cova 6705 usou o olho de ouro em vida, e não só depois de morta?

AUm desenho gravado no próprio olho representando a pálpebra aberta
BMarcas da pálpebra no crânio e sinais de abscesso causados pelo atrito da peça
CUm exame de DNA que identificou inflamação na órbita ocular
DUm relato escrito encontrado junto ao esqueleto descrevendo o uso da peça

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