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A resposta mais simples é a aparência. Um rosto com a órbita vazia chama atenção, e uma peça que preenche o buraco devolve a forma do rosto. Próteses com essa função existem em outros povos antigos, feitas de pedra, argila ou vidro.
O ouro complica a explicação. Um olho de betume pintado bastaria para esconder a falta. O ouro, que vinha de longe e custava caro, faz o olho brilhar e chama o olhar de quem está diante dela, o contrário de esconder.
Daí nasceu a leitura mais repetida nos jornais desde 2006: a de que a mulher seria uma sacerdotisa ou vidente, e o olho dourado, um sinal de quem enxerga o que os outros não veem. Os raios gravados em volta da pupila, parecidos com os de um sol, alimentam a ideia.
Essa leitura não tem prova direta. Nada na cova 6705 descreve a função dela, e a cidade não deixou textos sobre sacerdotes. A hipótese nasce do brilho do objeto, não de um registro.
Uma cidade de mãos finas
O que se sabe é que a Cidade Queimada tinha artesãos capazes de uma peça assim. No cemitério, a equipe de Sajjadi encontrou o crânio de uma menina de cerca de 13 anos com uma abertura retangular feita a instrumento, uma trepanação (cirurgia que corta o osso do crânio), e com sinais de cicatrização.
Na mesma necrópole saiu um tabuleiro de jogo com 60 peças e dois dados, que a imprensa iraniana logo comparou ao gamão. E saiu um copo de barro com cinco desenhos de uma cabra, cada um num passo do salto: girando o copo, o bicho parece se mover até alcançar as folhas de uma árvore.
A precisão do olho cabe nesse quadro. Quem gravava raios de um milímetro em ouro e desenhava uma cabra em movimento tinha paciência e ferramenta para uma prótese sob medida.
Ouro de longe
Falta explicar o caminho do material. Não há minas de ouro conhecidas no delta do Helmand, e o metal precisou chegar por troca, pelas mesmas estradas que traziam o lápis-lazúli de Badakhshan.
O betume tem origem igualmente incerta. Nenhuma análise publicada ligou a massa do olho a uma jazida específica, e sem esse teste ninguém sabe se a peça foi feita na cidade ou chegou pronta com a dona.
Por isso a pergunta de por que ouro fica sem resposta fechada. Vaidade, cargo religioso ou simples riqueza de família explicam a escolha, e nenhuma das três aparece escrita em lugar algum.
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