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Shimao, a cidade de 4 mil anos com jade nos muros

Uma muralha de 400 hectares no norte da China guardava jades nas frestas e uma pirâmide de degraus no centro

Muralha de pedra seca de Shimao, no norte da China

Shimao, no condado de Shenmu, em Shaanxi

▼

FICHA DO ARQUIVO

Relato: camponeses de Shaanxi vendiam jades achados nas encostas.

Registro: a muralha cercou 400 hectares por volta de 2000 a.C.

Anomalia: nenhum texto antigo cita a cidade.

Os muros de Shimao cercam cerca de 400 hectares no planalto de loess (a terra amarela e fina trazida pelo vento) do norte da China, segundo o estudo publicado na revista Antiquity em 2018 pela arqueóloga Li Jaang e pelo arqueólogo Sun Zhouyong. O Shiji, a grande crônica da história chinesa que Sima Qian terminou por volta de 94 a.C., não dedica uma linha a cidade alguma naquele planalto.

Uma das maiores cidades muradas do seu tempo, e nenhum texto antigo que a cite.

Shimao fica no condado de Shenmu, na ponta norte da província de Shaanxi, junto ao rio Tuwei, um afluente do rio Amarelo. A terra ali é seca, cortada por ravinas, e as areias do deserto de Mu Us começam a poucas dezenas de quilômetros.

Os moradores sempre souberam das pedras. Trechos de muralha, feitos de lajes de arenito empilhadas sem argamassa, aparecem acima do mato em vários morros, e os camponeses chamavam o lugar de cidade velha sem saber de quando.

Sabiam também do jade. Durante décadas, lâminas e discos verdes e pretos saíram das encostas e foram parar em antiquários de Xi'an e Pequim, e de lá em coleções da Europa e dos Estados Unidos, sem que ninguém anotasse de qual morro vinham.

O centro da cidade é um morro recortado em pirâmide de degraus. Os arqueólogos chamam o morro de Huangchengtai, “terraço da cidade imperial”, e as encostas dele foram revestidas de pedra, terraço sobre terraço, até o topo.

A datação por radiocarbono (a medida do carbono que resta em ossos, sementes e carvão) põe a vida da cidade entre cerca de 2300 e 1800 a.C. Os primeiros textos chineses conhecidos, as inscrições em ossos da dinastia Shang, só aparecem uns cinco séculos depois do abandono.

Quem ergueu a muralha, por que enfiou jade entre as pedras e por que a cidade foi largada, é o caso de hoje.

Ele começa com um saque nas encostas e com uma muralha que muita gente achava bem mais nova.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Registro

I, O portão que guardava jade

O SÍTIO

As muralhas de pedra seca de Shimao sobem pelas cristas dos morros de loess no condado de Shenmu, em Shaanxi.

As muralhas de pedra seca de Shimao sobem pelas cristas dos morros de loess no condado de Shenmu, em Shaanxi.

Foto: Kcx36, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Por muito tempo, Shimao foi confundida com obra recente. As muralhas de pedra seca lembravam as fortificações de fronteira do primeiro milênio antes de Cristo, e os jades das encostas circulavam no mercado sem contexto, longe da terra de onde saíram.

O quadro mudou em 2011. O Instituto Provincial de Arqueologia de Shaanxi, com o arqueólogo Sun Zhouyong à frente da equipe, começou um levantamento sistemático do sítio, em parte para medir o estrago dos saqueadores.

O mapa que saiu do levantamento mostrou uma cidade em três anéis. No meio, o Huangchengtai. Em volta dele, uma cidade interna murada. E, fechando tudo, uma cidade externa, com a muralha correndo pelas cristas dos morros e descendo pelas ravinas.

O portão leste

Em 2012, a equipe escavou o portão leste da cidade externa. Apareceu uma entrada pensada para impressionar e para defender: duas torres de pedra, bastiões salientes ao longo do muro e uma barbacã (um pátio fechado na frente do portão, que obriga quem chega a fazer uma curva antes de entrar).

Foi nas juntas dessas paredes que surgiu o achado que deu fama ao sítio. Os escavadores encontraram dezenas de jades fincados de propósito entre as lajes: lâminas, discos e argolas, colocados dentro da alvenaria enquanto o muro subia.

Uma muralha de pedra seca, com jade guardado nas frestas.

Junto ao portão, no reboco caído das paredes, havia também fragmentos de pintura mural, com traços geométricos em vermelho, amarelo, preto e laranja. O instituto de Shaanxi os apresentou como algumas das pinturas murais mais antigas já achadas na China.

As covas do portão

O portão guardava ainda uma descoberta sombria. Em duas covas logo do lado de fora da entrada, a equipe de Sun Zhouyong encontrou cerca de 80 crânios humanos, sem o resto dos corpos. A análise dos ossos indicou que a maioria pertencia a moças jovens.

Os escavadores leram as covas como sacrifício ligado à fundação do portão ou a uma cerimônia feita nele, prática conhecida em outros sítios chineses do mesmo período, como relataram Li Jaang e Sun Zhouyong no estudo de 2018.

O registro, assim, fixa o tamanho da cidade, a idade, o portão monumental, os jades nas paredes e as covas. Ele não diz quem dava as ordens no topo do terraço.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Quem mandava do alto do terraço

As escavações no Huangchengtai, a partir de 2016, mostraram o tamanho do poder concentrado ali. O morro foi cortado e revestido em pelo menos 11 degraus de pedra, segundo o estudo de 2018 na Antiquity, e o topo plano recebeu fundações de grandes salões e um reservatório de água.

Entre as pedras do revestimento, a equipe achou dezenas de blocos gravados com rostos humanos, figuras de animais e seres que misturam os dois. Alguns estavam virados para fora, à vista de quem subia a pirâmide, e outros tinham sido reaproveitados no meio da obra.

O topo guardava também restos de oficinas. Os arqueólogos recolheram milhares de agulhas de osso e pequenos berimbaus de boca feitos de osso, instrumentos que vibram presos aos lábios, sinal de artesãos especializados vivendo junto a quem governava.

Uma pirâmide de degraus, com rostos de pedra voltados para a escada.

As três leituras

Desde as primeiras escavações, três respostas foram propostas para quem mandava em Shimao:

• Um Estado próprio do planalto, um centro de poder que não dependia da planície central, como defendem Li Jaang e Sun Zhouyong no artigo de 2018, cujo título fala em periferias que eram centros.

• A capital do Imperador Amarelo, o soberano lendário que a tradição chinesa põe na origem da civilização, hipótese levantada pelo historiador Shen Changyun, da Academia de Ciências Sociais de Hebei.

• Uma aliança de chefias do norte, ligada às culturas do deserto e das estepes, que usou o jade e a pedra para impressionar vizinhos e rivais.

A segunda leitura tem apelo popular e pouco apoio técnico. O Imperador Amarelo aparece em textos escritos dois mil anos depois do abandono de Shimao, e nenhum objeto do sítio traz nome, título ou símbolo que o ligue a ele.

A primeira leitura ganhou força porque muda o mapa da história chinesa. Os livros escolares contavam a civilização nascendo no vale médio do rio Amarelo e se espalhando para fora. Shimao mostra uma cidade monumental no norte seco, séculos antes da primeira capital da planície.

A terceira leitura explica bem a pedra e o jade, mas não tem ainda um rival nomeado. Nenhum sítio vizinho do mesmo porte foi escavado a ponto de mostrar com quem Shimao disputava a região.

Essa capital é Erlitou, na província de Henan, que muitos arqueólogos ligam à dinastia Xia. Ela cresce justamente por volta de 1800 a.C., a época em que Shimao deixa de ser ocupada.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, O abandono sem testemunha

O primeiro ponto que falta provar é o sentido do jade nos muros. Nenhuma inscrição explica o gesto. A leitura mais aceita entre os escavadores é a de proteção ritual, o jade como objeto sagrado que guardava a entrada, mas ela se apoia só na posição das peças e no valor que o jade tinha em toda a China antiga.

O segundo ponto é a origem das moças das covas. Se vieram de longe, as covas falariam de guerra e cativas. Se eram da própria cidade, falariam de um rito interno. Os crânios guardam a resposta na química dos dentes, e um resultado conclusivo sobre a procedência delas ainda não foi apresentado pelos escavadores.

O terceiro ponto é a autoria das gravuras do terraço. Os rostos de pedra lembram motivos de culturas do jade mais ao sul e mais a leste, e ninguém demonstrou ainda se os escultores eram do lugar ou vieram de fora, trazendo o estilo junto.

A data da partida

O quarto ponto é o fim. O radiocarbono indica que Shimao foi deixada por volta de 1800 a.C., mas as camadas não mostram incêndio geral nem destruição de muralha que marque um ataque.

Uma hipótese liga o abandono ao clima. Estudos de sedimentos de lagos do norte da China apontam um período mais seco e mais frio entre cerca de 2200 e 1800 a.C., e o deserto de Mu Us fica perto o bastante para que poucos graus a menos pesassem nas lavouras de milhete.

A outra hipótese é política. O poder teria migrado para o sul, rumo à planície onde Erlitou crescia, levando gente, artesãos e o próprio prestígio do jade.

A cidade tem data de nascimento. A partida não tem causa.

O que se sabe com segurança é firme. Shimao cercou cerca de 400 hectares com muralha de pedra, ergueu uma pirâmide de degraus com rostos gravados, guardou jades dentro das paredes e enterrou crânios junto ao portão, entre cerca de 2300 e 1800 a.C.

O resto continua sem prova. Falta um texto, um selo ou um símbolo que diga quem governava ali, e falta uma camada que diga por que a cidade foi largada.

Um Estado do planalto que perdeu as lavouras quando o clima secou, como sugerem os estudos de sedimentos, ou um poder que se mudou inteiro para o sul e foi crescer na planície de Erlitou. As pistas das duas leituras estão acima, e a escolha depende do peso que você dá ao deserto ou à data em que Erlitou cresceu.

 
 
 
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