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A câmara oca de Spiro, vendida pelo correio

Em Oklahoma, mineiros abriram por dentro um monte indígena em 1935 e esvaziaram a câmara antes da chegada da ciência

Túnel de mineração aberto num monte de terra

O monte Craig, em Spiro, Oklahoma

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: a câmara do monte Craig.

Local: Spiro, Oklahoma.

Anomalia: vendida antes de estudada.

Em 1935, a Assembleia Legislativa de Oklahoma aprovou a lei estadual de antiguidades, a primeira a exigir licença para escavar sítios indígenas no estado, segundo o historiador David La Vere no livro Looting Spiro Mounds (2007). No mesmo ano, dentro do monte Craig, em Spiro, um túnel aberto por uma empresa de mineração já tinha alcançado uma câmara oca, e o conteúdo dela seguia para compradores pelo correio.

As duas notícias dividem o mesmo estado, o mesmo ano e o mesmo monte de terra.

O monte Craig fica perto do rio Arkansas, no leste de Oklahoma, junto à divisa com o estado do Arkansas. É o maior de um conjunto de montes artificiais erguidos por um povo da cultura do Mississippi (as sociedades agrícolas que construíram montes de terra no sul e no centro dos Estados Unidos entre os séculos 9 e 16).

Quem cavou não procurava passado. Procurava venda. Os sócios da Pocola Mining Company tinham arrendado o direito de escavar e avançavam com pá e picareta por dentro da terra, escorando o teto do túnel com madeira.

Num ponto do monte, a terra cedeu para um vazio. Lá dentro, segundo os relatos reunidos depois pelos arqueólogos, havia tecido inteiro, penas, contas de pérola, placas de cobre batido e um amontoado de conchas marinhas gravadas com figuras.

As conchas vinham do golfo do México, centenas de quilômetros ao sul. O cobre vinha da região dos Grandes Lagos, no norte.

O tecido não devia ter chegado ao século 20. Fibra vegetal e pena apodrecem depressa na terra úmida; ali, o espaço fechado e sem terra encostada nos objetos guardou o material por séculos.

Os mineiros separaram o que tinha preço. Conchas inteiras, cobre e contas foram vendidos a negociantes e colecionadores. O que não achava comprador ficou no monte de descarte, ao lado da boca do túnel.

Quando os arqueólogos da Universidade de Oklahoma chegaram com licença, a câmara estava vazia e o túnel, desabado.

Nenhum arqueólogo mediu, fotografou ou desenhou a câmara antes de ela ser esvaziada. Ninguém anotou onde cada peça estava.

O registro começa pelos seis sócios, pelo arrendamento e pela pá que abriu o primeiro buraco.

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I  O Registro

Seis sócios e um arrendamento

A Pocola Mining Company nasceu em 1933, em Spiro, no condado de LeFlore, com seis sócios da região. Era mineração só no nome: o negócio era cavar o monte Craig atrás de objetos indígenas para vender.

O monte levava o nome da família Craig, dona do terreno. Os sócios pagaram aos herdeiros pelo direito de cavar durante um prazo fixo, e o achado passou a ser deles.

Spiro era uma cidade pequena de agricultores, atingida em cheio pela seca e pela Grande Depressão. Para quem não tinha colheita nem salário, um monte cheio de objetos vendáveis parecia uma jazida, e os sócios o trataram como tal.

O túnel pela lateral

Cavar por cima exigiria remover o monte camada por camada. Os sócios escolheram um túnel horizontal, aberto pela lateral e apontado para o miolo.

Nos primeiros meses saíram cacos de cerâmica, contas soltas e ossos. Os compradores pagavam por peça, e a peça inteira valia muitas vezes a quebrada, então a pá trabalhava atrás de objeto inteiro.

Ossos humanos não tinham valor de venda. Ficaram espalhados no entulho ou foram jogados fora junto com a terra.

O vazio no centro

Em 1935, o túnel bateu num espaço oco sob o centro do monte. Os arqueólogos chamaram o lugar, depois, de Great Mortuary (Grande Mortuário, em inglês): um depósito funerário com restos humanos e objetos empilhados no chão.

Os relatos falam de cestos, mantos de pena, tecido trançado, machados de pedra polida, cachimbos de pedra esculpida e as conchas gravadas, várias delas usadas como taças.

A câmara atravessou séculos fechada e não chegou a um ano aberta.

Notícias do achado correram pelos jornais da região. Curiosos subiram o monte, e a procura de colecionadores fez o preço das conchas gravadas subir a cada semana em que a câmara seguia aberta.

Pelo correio

As peças saíram de três jeitos: venda direta na beira do monte, venda a negociantes de outras cidades e encomenda postal. Conchas gravadas viajaram em caixas para colecionadores de vários estados e chegaram à Europa.

Há relatos de placas de cobre cortadas para dividir entre sócios e de tecido rasgado em pedaços menores, mais fáceis de vender.

O arrendamento acabou no fim de 1935. O túnel terminou desabado, e relatos atribuem o desmoronamento a uma carga explosiva deixada pelos próprios sócios na saída.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Quem descansava na câmara

Com a nova lei em vigor, a Universidade de Oklahoma voltou ao monte Craig com licença. Entre 1936 e 1941, o arqueólogo Forrest Clements dirigiu escavações com trabalhadores pagos pela WPA (Works Progress Administration, a agência federal de obras criada contra o desemprego da Grande Depressão).

A equipe peneirou o descarte dos mineiros, mapeou o que restava do monte e recolheu fragmentos. O centro do depósito já tinha sido esvaziado.

Os donos do lugar

Spiro foi ocupado durante séculos e teve o auge entre os séculos 12 e 15. Os povos de língua caddo (família de línguas indígenas do sul das Grandes Planícies) reivindicam os construtores como ancestrais, e a Caddo Nation e os Wichita se reconhecem herdeiros do sítio.

As conchas gravadas trazem homens-pássaro, serpentes com chifres e guerreiros com cabeça decepada na mão. As mesmas figuras aparecem em sítios do Mississippi até a Geórgia, e os arqueólogos chamam o conjunto de Southeastern Ceremonial Complex (Complexo Cerimonial do Sudeste).

Esses símbolos ligam Spiro a uma rede de troca e de crença espalhada por boa parte do sudeste americano. O monte Craig guardava a maior concentração conhecida dessas gravuras em concha num único lugar.

Um túmulo feito oco

A pergunta central é a câmara. James A. Brown, arqueólogo da Universidade Northwestern, estudou o depósito por décadas e publicou a síntese The Spiro Ceremonial Center (o centro cerimonial de Spiro), em 1996, pela Universidade de Michigan.

Na leitura de Brown, o Grande Mortuário não guardava um enterro só. Restos e objetos foram tirados de casas mortuárias mais antigas, reunidos e depositados de uma vez, sob uma estrutura de postes coberta de terra que deixou o vazio.

Brown sustentou a leitura com o que a universidade achou nas bordas: fragmentos de cestos e de tecido em camadas diferentes, sinais de que o material foi trazido e arrumado, e não enterrado aos poucos ao longo de gerações.

Sem os ossos no lugar, nenhuma das pessoas da câmara tem nome, idade ou parentesco conhecido.

Os mineiros não guardaram crânio, não contaram corpos nem anotaram camadas. Os restos humanos que a universidade recolheu vieram misturados ao entulho, sem ligação com as peças vendidas.

O que se sabe é o tipo de lugar: um depósito de elite, com objetos de troca de longa distância. Quem eram aqueles mortos, se chefes, sacerdotes ou linhagens inteiras, segue sem resposta, porque a prova saiu do monte antes de alguém olhar.

 
 

III  O Que Falta Provar

As peças sem endereço

O primeiro limite é o contexto. Uma concha gravada vale para a ciência pelo que estava ao lado dela: osso, camada, outra peça. As conchas de Spiro chegaram aos museus sem essa informação.

Philip Phillips e James A. Brown passaram anos fotografando e desenhando as conchas espalhadas por coleções públicas e privadas. O resultado saiu em seis volumes, Pre-Columbian Shell Engravings from the Craig Mound at Spiro, Oklahoma (gravuras pré-colombianas em concha do monte Craig), pela editora do Museu Peabody de Harvard, entre 1975 e 1982.

Um acervo partido

Hoje, peças de Spiro estão no Museu Sam Noble, da Universidade de Oklahoma, no Museu Nacional do Índio Americano, do Smithsonian, em museus da Europa e em coleções particulares sem catálogo público.

Há fragmentos de uma mesma concha em instituições diferentes. Juntar as metades depende de fotografia, desenho e sorte.

Cada peça vendida em 1935 levou embora um pedaço da resposta.

Falsificações também entraram no mercado depois de 1935, aproveitando a fama do sítio. Sem registro de escavação, separar a concha autêntica da cópia moderna depende de exame de material e de estilo, peça por peça.

A lei e o sítio

O segundo limite é jurídico. Desde 1990, a NAGPRA (lei federal americana de proteção e devolução de túmulos indígenas) obriga museus com verba federal a negociar restos humanos e objetos funerários com as nações de origem. Coleção particular fica fora dessa obrigação.

O terreno hoje é o Spiro Mounds Archaeological Center, aberto em 1978 pela Sociedade Histórica de Oklahoma. O monte Craig foi reconstruído na forma aproximada, sem a câmara.

Escavações menores no sítio, nas décadas seguintes, refinaram a cronologia das casas e dos outros montes. Nenhuma delas recuperou o miolo intacto do Grande Mortuário, porque o miolo deixou de existir em 1935.

O que uma prova exigiria

1. Catalogar todas as peças de Spiro em museus e coleções, com foto e origem de compra.

2. Datar por radiocarbono (a datação pelo carbono 14) tecidos e cestos guardados, peça por peça.

3. Cruzar os registros de venda de 1935 com os diários de campo da universidade, com a Caddo Nation na mesa.

Sobram dois caminhos para o que saiu do monte. Remontar a câmara peça por peça, a partir das conchas espalhadas em museus e coleções, ou aceitar o Grande Mortuário como perdido e estudar só o que a pá deixou no lugar. Escolha o seu.

 
 
 
Quiz da edição

Quem liderou, entre 1936 e 1941, as escavações oficiais no monte Craig com equipe paga pela WPA?

ADavid La Vere
BForrest Clements
CJames A. Brown
DA Pocola Mining Company

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