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ED 123

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O planalto maltês riscado por sulcos que ninguém consegue datar

Em Misraħ Għar il-Kbir, pares de sulcos cortam o calcário em todas as direções, descem para dentro do mar e param na borda do penhasco

Planalto de calcário claro em luz rasante, com dois sulcos paralelos cavados fundo na rocha cruzando outro par em ângulo, mapa de levantamento preso por trena de latão e régua de aço em primeiro plano, sob luz âmbar focal

O planalto de sulcos cruzados em Siġġiewi, Malta

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: um planalto de calcário nu, a oeste de Siġġiewi, aparece coberto por pares de sulcos que se cruzam e se sobrepõem em dezenas de direções.

Registro: o arqueólogo britânico David Trump batizou o lugar de Clapham Junction, em referência ao entroncamento ferroviário de Londres, e descreveu o conjunto no livro Malta: Prehistory and Temples, de 2002.

Anomalia: túmulos escavados na rocha em período púnico cortam alguns dos sulcos, o que prova apenas que os sulcos vieram antes, sem dizer quanto antes.

No planalto de calcário a oeste de Siġġiewi, no sul de Malta, o solo sumiu há séculos e a rocha ficou exposta por centenas de metros. Sobre essa superfície branca corre um emaranhado de sulcos duplos que se cruzam, se sobrepõem, mudam de direção e se ramificam sem regra visível para quem caminha por ali.

O lugar se chama Misraħ Għar il-Kbir, expressão maltesa que significa o descampado da gruta grande, por causa da caverna vizinha que abrigou famílias camponesas até 1835, quando a administração britânica esvaziou o abrigo. O arqueólogo britânico David Trump apelidou o campo de sulcos de Clapham Junction, comparando o cruzamento de linhas ao entroncamento ferroviário do sul de Londres.

Os sulcos não são exclusividade desse planalto. Eles reaparecem em dezenas de pontos de Malta e da ilha vizinha de Gozo, sempre no mesmo calcário claro, sempre em pares. Alguns descem a costa e continuam por baixo da água, na baía de São Jorge, em Birżebbuġa. Outros avançam pelo platô de Dingli e param na beirada de um penhasco de mais de duzentos metros, como se a rocha que continuava a rota tivesse desabado.

Nenhuma escavação nas ilhas devolveu uma roda, um eixo, um patim de trenó ou qualquer peça de veículo que encaixe na bitola dos pares. Não há inscrição, não há depósito datável no fundo das canaletas, não há documento antigo que descreva alguém usando as pistas. Sobra a marca, gravada numa pedra que reage à água e ao peso de um jeito particular.

A investigação de hoje começa pela geometria, pelo único conjunto de dados que o terreno entrega sem intermediário: a largura entre os pares, a profundidade, o perfil da parede e o que acontece quando duas rotas se encontram.

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I  O Registro

I, Pares cortados na rocha nua

O SÍTIO

O planalto de calcário a oeste de Siġġiewi, em Malta, onde pares de sulcos cavados na rocha se cruzam em dezenas de direções.

O planalto de calcário a oeste de Siġġiewi, em Malta, onde pares de sulcos cavados na rocha se cruzam em dezenas de direções.

Foto: Lysy, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Os sulcos de Misraħ Għar il-Kbir aparecem sempre aos pares, e a distância entre o centro de um e o centro do outro se mantém teimosamente parecida de um ponto a outro da ilha. David Trump registrou, em Malta: Prehistory and Temples, de 2002, uma medida corrente perto de um metro e quarenta, com variação para menos e para mais conforme o trecho. Essa regularidade é o dado mais forte do caso: quem abriu as marcas usava alguma coisa de largura padronizada, repetida por muita gente e por muito tempo.

A profundidade varia bem mais. Há trechos em que o par mal arranha a superfície, e há trechos em que a canaleta passa de meio metro, fundo suficiente para engolir a perna de um adulto até o joelho. O perfil também muda: parede em U aberto em alguns pontos, parede em V fechado em outros.

A rocha é parte da resposta. O calcário de Globigerina, camada amarelada que cobre boa parte de Malta, é macio o bastante para ser serrado em blocos com ferramenta manual, e amolece quando encharca. O geomorfólogo Derek Mottershead, da Universidade de Portsmouth, publicou com Alastair Pearson e Martin Schaefer um estudo na revista Antiquity, em 2008, argumentando que esse material cede sob carga repetida quando molhado, e que a abertura de uma canaleta funda não exige os milênios que a intuição sugere.

A geometria dos cruzamentos

Onde dois pares se encontram, a rocha conta uma sequência. Em alguns cruzamentos, uma das trilhas corta a outra e interrompe o traçado; em outros, as duas se fundem e seguem juntas antes de se separarem de novo. O emaranhado não foi aberto num mutirão só, e sim por acréscimo, com rotas novas passando por cima de rotas velhas durante um período longo.

As marcas param na borda do penhasco, e o penhasco não guarda a continuação.

O planalto de Dingli guarda o trecho mais desconcertante. Ali, um par de sulcos avança pela superfície e simplesmente termina na beirada do despenhadeiro, sem curva, sem alargamento, sem pátio de manobra. A explicação geológica cabe: a costa oeste de Malta recua por desabamento de blocos, e o pedaço de platô que sustentava a continuação da rota caiu no mar em algum momento posterior à abertura dos sulcos.

O mesmo raciocínio vale para o litoral submerso. Na baía de São Jorge, em Birżebbuġa, os pares entram na água e prosseguem pelo fundo raso. Isso situa a abertura deles num momento em que aquela faixa de rocha estava seca, e o nível do Mediterrâneo subiu muito desde que a última glaciação terminou, janela larga demais para datar.

O único limite firme veio de um enterro. Em Misraħ Għar il-Kbir, túmulos escavados na rocha em período púnico, associados à presença cartaginesa nas ilhas desde o século VI antes da era comum, foram abertos por cima de sulcos já existentes e os cortaram. A ordem fica estabelecida: os sulcos vieram primeiro. Quanto tempo antes, a sepultura não informa.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Quem arrastava o quê

A hipótese mais antiga é a do carro de duas rodas. Ela explica com economia o par, a bitola constante e a convergência das trilhas para zonas de pedreira e de cultivo. O problema é o fundo dos sulcos: roda de madeira ou com aro de metal tende a deixar canaleta de parede reta e fundo estreito, e vários trechos malteses mostram perfil largo e raso incompatível com esse desgaste.

Daí nasceu a segunda proposta, a do veículo de patins. Themistocles Zammit, médico e diretor do Museu de Malta nas primeiras décadas do século passado, descreveu os sulcos em seus escritos sobre a ilha e defendeu que eles nasceram do arrasto de um carro sem rodas, apoiado em duas varas puxadas por animal, com as pontas raspando a pedra. O aparelho tem nome na literatura de transporte antigo, o slide car, o carro de arrasto usado em terreno pedregoso da Europa atlântica até o século XIX.

A terceira linha troca o transporte pela água. Alguns pesquisadores leram os pares como canais de irrigação ou de drenagem abertos a ferramenta, já que o traçado desce declives e converge para depressões onde havia solo agrícola. A objeção é direta: canal aberto de propósito tem fundo uniforme e profundidade regulada, e os sulcos malteses engordam e afinam sem critério hidráulico.

A carga que faria sentido

A quarta proposta parte da economia da ilha. A arqueóloga Claudia Sagona, da Universidade de Melbourne, publicou em 2004 um estudo sobre a Malta púnica em que associa parte das trilhas ao transporte de terra agrícola e de blocos de pedreira, atividade que obrigaria a repetir o mesmo trajeto carregado por gerações. Malta tem pouco solo e muita rocha; mover terra de um ponto a outro para formar campos foi trabalho constante nas ilhas.

Cada hipótese resolve uma parte da marca e tropeça noutra.

A datação divide tanto quanto o veículo. Uma corrente empurra a abertura das trilhas para a Idade do Bronze maltesa, depois do período dos templos megalíticos, em torno de dois mil anos antes da era comum. Outra corrente aproxima o conjunto do período púnico e romano, quando a exploração de pedreiras se intensificou. O estudo de Mottershead e seus colegas, em 2008, enfraquece o argumento cronológico de quem usa a profundidade como relógio, porque mostra que rocha mole e molhada se desgasta rápido.

Existe ainda a possibilidade que deixa todos os lados desconfortáveis: os sulcos podem não ter idade única. Um campo aberto por acréscimo, com rotas cortando rotas, admite trilhas separadas por mil anos dentro do mesmo planalto, feitas por veículos diferentes para finalidades diferentes, e nenhuma técnica disponível hoje consegue separar uma camada da outra na superfície da pedra.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, A rocha que não guarda data

A primeira lacuna é de matéria orgânica. Datação por radiocarbono precisa de carvão, osso, madeira ou semente em contexto fechado, e o fundo de um sulco aberto ao tempo é o pior lugar possível para isso: chuva, vento e pisoteio lavam o depósito. Os poucos sedimentos recolhidos dentro das canaletas malteses são recentes e não dizem nada sobre o uso antigo.

A segunda é de veículo. Nenhuma escavação em Malta ou em Gozo devolveu roda, eixo, aro, patim ou arreio que corresponda à bitola dos pares. Sem o objeto, toda reconstrução do transporte é inferência a partir da forma da marca, e a forma da marca varia demais para fechar uma conclusão só.

A terceira é de método. A datação por luminescência, que mede há quanto tempo um grão mineral ficou sem ver luz, funciona em sedimento soterrado e não em superfície de rocha exposta e lavada. Técnicas de exposição por isótopos cosmogênicos medem quanto tempo uma face ficou ao ar livre, com margens de erro largas e resultados sensíveis a erosão posterior, exatamente o que sobra num planalto de calcário mole batido pelo vento do canal de Sicília.

A quarta é de contexto arqueológico. As trilhas atravessam terreno lavrado, pastado e pedreirado por milênios, e o material de superfície mistura tudo. Nenhum sítio escavado ao lado de um par de sulcos entregou uma camada intacta ligada ao uso da trilha, em vez de simplesmente vizinha dela.

A quinta lacuna é de registro escrito. Malta teve escrita fenícia, púnica, grega, latina, árabe e italiana, e nenhum texto antigo conhecido descreve o traçado, a construção ou a manutenção das pistas. Um sistema de transporte tão extenso deveria aparecer em algum inventário, contrato ou relato de viagem, e o silêncio documental é o dado negativo mais pesado do caso.

O conjunto sustenta hoje um esqueleto curto. Gente andou repetidamente pela mesma rocha, com algum aparelho de largura padronizada, em momento anterior aos túmulos púnicos do planalto, e parou de fazer isso antes que qualquer cronista registrasse a cena. Tudo o mais é leitura de forma.

O que desempataria a conta é material. Uma trilha selada por camada intacta de ocupação, com carvão ou osso em contexto fechado, daria a primeira data absoluta. Um veículo achado em túmulo ou em poço da ilha resolveria a mecânica. Um levantamento de todos os cruzamentos, com o perfil de cada canaleta medido, diria quantas gerações de traçado estão sobrepostas. Enquanto as três frentes seguirem abertas, a rocha guarda a marca sem guardar o calendário.

"Um campo de trilhas que atravessa uma ilha inteira sumiu de toda memória escrita, ou nunca pareceu digno de registro a quem o usava todo dia?"

 
 
 
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Quiz da edição

No livro Malta: Prehistory and Temples, de 2002, David Trump registrou qual distância aproximada entre os sulcos de cada par, em Misraħ Għar il-Kbir?

APerto de 60 centímetros
BPerto de um metro e quarenta
CPerto de dois metros e dez
DPerto de três metros

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