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FICHA DO ARQUIVO
Relato: um planalto de calcário nu, a oeste de Siġġiewi, aparece coberto por pares de sulcos que se cruzam e se sobrepõem em dezenas de direções.
Registro: o arqueólogo britânico David Trump batizou o lugar de Clapham Junction, em referência ao entroncamento ferroviário de Londres, e descreveu o conjunto no livro Malta: Prehistory and Temples, de 2002.
Anomalia: túmulos escavados na rocha em período púnico cortam alguns dos sulcos, o que prova apenas que os sulcos vieram antes, sem dizer quanto antes.
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No planalto de calcário a oeste de Siġġiewi, no sul de Malta, o solo sumiu há séculos e a rocha ficou exposta por centenas de metros. Sobre essa superfície branca corre um emaranhado de sulcos duplos que se cruzam, se sobrepõem, mudam de direção e se ramificam sem regra visível para quem caminha por ali.
O lugar se chama Misraħ Għar il-Kbir, expressão maltesa que significa o descampado da gruta grande, por causa da caverna vizinha que abrigou famílias camponesas até 1835, quando a administração britânica esvaziou o abrigo. O arqueólogo britânico David Trump apelidou o campo de sulcos de Clapham Junction, comparando o cruzamento de linhas ao entroncamento ferroviário do sul de Londres.
Os sulcos não são exclusividade desse planalto. Eles reaparecem em dezenas de pontos de Malta e da ilha vizinha de Gozo, sempre no mesmo calcário claro, sempre em pares. Alguns descem a costa e continuam por baixo da água, na baía de São Jorge, em Birżebbuġa. Outros avançam pelo platô de Dingli e param na beirada de um penhasco de mais de duzentos metros, como se a rocha que continuava a rota tivesse desabado.
Nenhuma escavação nas ilhas devolveu uma roda, um eixo, um patim de trenó ou qualquer peça de veículo que encaixe na bitola dos pares. Não há inscrição, não há depósito datável no fundo das canaletas, não há documento antigo que descreva alguém usando as pistas. Sobra a marca, gravada numa pedra que reage à água e ao peso de um jeito particular.
A investigação de hoje começa pela geometria, pelo único conjunto de dados que o terreno entrega sem intermediário: a largura entre os pares, a profundidade, o perfil da parede e o que acontece quando duas rotas se encontram.
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O SÍTIO
O planalto de calcário a oeste de Siġġiewi, em Malta, onde pares de sulcos cavados na rocha se cruzam em dezenas de direções.
Foto: Lysy, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
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Os sulcos de Misraħ Għar il-Kbir aparecem sempre aos pares, e a distância entre o centro de um e o centro do outro se mantém teimosamente parecida de um ponto a outro da ilha. David Trump registrou, em Malta: Prehistory and Temples, de 2002, uma medida corrente perto de um metro e quarenta, com variação para menos e para mais conforme o trecho. Essa regularidade é o dado mais forte do caso: quem abriu as marcas usava alguma coisa de largura padronizada, repetida por muita gente e por muito tempo.
A profundidade varia bem mais. Há trechos em que o par mal arranha a superfície, e há trechos em que a canaleta passa de meio metro, fundo suficiente para engolir a perna de um adulto até o joelho. O perfil também muda: parede em U aberto em alguns pontos, parede em V fechado em outros.
A rocha é parte da resposta. O calcário de Globigerina, camada amarelada que cobre boa parte de Malta, é macio o bastante para ser serrado em blocos com ferramenta manual, e amolece quando encharca. O geomorfólogo Derek Mottershead, da Universidade de Portsmouth, publicou com Alastair Pearson e Martin Schaefer um estudo na revista Antiquity, em 2008, argumentando que esse material cede sob carga repetida quando molhado, e que a abertura de uma canaleta funda não exige os milênios que a intuição sugere.
A geometria dos cruzamentos
Onde dois pares se encontram, a rocha conta uma sequência. Em alguns cruzamentos, uma das trilhas corta a outra e interrompe o traçado; em outros, as duas se fundem e seguem juntas antes de se separarem de novo. O emaranhado não foi aberto num mutirão só, e sim por acréscimo, com rotas novas passando por cima de rotas velhas durante um período longo.
As marcas param na borda do penhasco, e o penhasco não guarda a continuação. |
O planalto de Dingli guarda o trecho mais desconcertante. Ali, um par de sulcos avança pela superfície e simplesmente termina na beirada do despenhadeiro, sem curva, sem alargamento, sem pátio de manobra. A explicação geológica cabe: a costa oeste de Malta recua por desabamento de blocos, e o pedaço de platô que sustentava a continuação da rota caiu no mar em algum momento posterior à abertura dos sulcos.
O mesmo raciocínio vale para o litoral submerso. Na baía de São Jorge, em Birżebbuġa, os pares entram na água e prosseguem pelo fundo raso. Isso situa a abertura deles num momento em que aquela faixa de rocha estava seca, e o nível do Mediterrâneo subiu muito desde que a última glaciação terminou, janela larga demais para datar.
O único limite firme veio de um enterro. Em Misraħ Għar il-Kbir, túmulos escavados na rocha em período púnico, associados à presença cartaginesa nas ilhas desde o século VI antes da era comum, foram abertos por cima de sulcos já existentes e os cortaram. A ordem fica estabelecida: os sulcos vieram primeiro. Quanto tempo antes, a sepultura não informa.
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