|
FICHA DO ARQUIVO
Relato: entre 1485 e 1551, cinco ondas de uma febre com suor abundante atravessaram a Inglaterra, derrubando homens e mulheres em plena saúde poucas horas depois do primeiro calafrio.
Registro: os cronistas datam os surtos em 1485, 1508, 1517, 1528 e 1551, e o médico John Caius descreveu o quadro clínico completo em inglês, com a sequência de sinais e o intervalo de horas.
Anomalia: o quinto surto passou e a doença nunca mais voltou, e nenhum agente compatível com o quadro descrito foi identificado até hoje.
|
|
Uma epidemia costuma deixar três rastros: um agente, um padrão de contágio e uma população preferida. O caso inglês do século 16 tem os dois últimos com precisão incomum para a época, e o primeiro simplesmente não existe.
O quadro entrou nos registros com nome próprio em latim, sudor anglicus, e em inglês com o nome mais direto que a língua permitia: a doença do suor. A escolha do nome já dizia o que impressionava. Não era a febre, não era a tosse, não era a mancha na pele.
Era o suor. Abundante, súbito, de cheiro forte, começando algumas horas depois de um calafrio inicial e seguindo por um dia inteiro no corpo de quem tinha acordado bem naquela manhã.
O intervalo é o dado que fixou o caso na memória. Entre o primeiro sinal e o desfecho podiam passar poucas horas, e os cronistas repetem a mesma imagem de gente que jantava com a família e não chegava ao dia seguinte.
A seleção também chamava atenção. As grandes epidemias do período pesavam sobre criança pequena, sobre idoso e sobre pobre malnutrido, e essa fazia o contrário: escolhia homens e mulheres entre os vinte e os quarenta anos, com boa comida à mesa e nenhuma queixa anterior.
Cortesãos, comerciantes prósperos, autoridades municipais e clérigos de posição aparecem em quantidade desproporcional nas listas. Em Londres, em 1485, dois prefeitos e seis vereadores foram registrados numa única semana.
Havia ainda a fronteira geográfica. O quadro percorria a Inglaterra de ponta a ponta e parava. A Escócia foi pouco atingida, a Irlanda quase nada, e a única vez que o suor cruzou o mar em escala se conteve no norte da Europa continental sem descer para França e Itália.
Cinco ondas em sessenta e seis anos, quadro clínico anotado por médicos, listas de sepultamento paroquiais, cartas de embaixadores. E depois de 1551, nada. A doença não recuou aos poucos, não virou endemia branda, não deixou descendente reconhecível.
O que existe de firme começa nos registros dos próprios anos dos surtos, ano por ano.
Continue lendo ↓
|
|
A primeira onda chega junto com uma dinastia. Em agosto de 1485, o exército de Henrique Tudor desembarca no País de Gales, vence em Bosworth e marcha para Londres, e o suor aparece na capital em setembro, semanas antes da coroação.
A coincidência gerou leitura política imediata. Cronistas ligaram a doença à chegada dos mercenários franceses e bretões que compunham parte da tropa, e o reinado nasceu com a acusação de ter trazido a praga na bagagem.
As ondas seguintes vêm em 1508, 1517, 1528 e 1551. O intervalo é irregular, entre nove e vinte e três anos, e cada retorno pega uma geração que não guardava defesa da anterior.
A onda de 1517 esvaziou Oxford e Cambridge, com as universidades suspendendo atividade, e alcançou a corte de Henrique VIII, que passou o verão mudando de residência para fugir do foco.
Em 1528, o surto entrou no palácio. Ana Bolena adoeceu em Hever e se recuperou; o cardeal Wolsey adoeceu mais de uma vez; o rei dissolveu a casa real e circulou entre propriedades pequenas com séquito reduzido.
|
Um homem alegre ao jantar podia estar em estado grave antes da meia-noite, e o mesmo relato se repete de cidade em cidade, na mesma ordem de sinais.
|
O quadro clínico só ganhou descrição sistemática no último surto. O médico John Caius, que estava em Shrewsbury em 1551, escreveu o relato em inglês corrente para que o texto servisse a quem não lia latim.
Caius organiza a doença em duas fases. A primeira, fria, trazia apreensão súbita, tremor, dor de cabeça, dor no pescoço e nos ombros e um cansaço que derrubava a pessoa onde ela estivesse.
A segunda, quente, era o suor propriamente dito, com sede intensa, coração acelerado, dor no peito, delírio e uma sonolência que ele considerava o pior sinal de todos.
|
Quem sobrevivia ao primeiro ataque não ficava seguro, porque alguns adoeceram duas e três vezes, e o corpo não guardava defesa nenhuma do episódio anterior.
John Caius, A Boke or Counseill Against the Disease Commonly Called the Sweate, 1552
|
A ausência de imunidade adquirida é um dos dados mais firmes do dossiê, e ele complica qualquer explicação simples. Reinfecção em intervalo curto não combina com a maioria dos vírus que circulavam por contato humano direto.
Falta no registro tudo o que ajudaria a identificar o agente. Não há descrição de bubão, não há erupção característica, não há tosse com sangue, não há a mancha escura que os cronistas sabiam reconhecer na peste.
Os registros de sepultamento paroquiais confirmam o formato da onda. Em 1551, várias paróquias mostram picos concentrados em duas ou três semanas, seguidos de retorno imediato ao número normal de assentos.
|