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A estrela de 1054 que a Europa não anotou

Cronistas da China viram a luz de dia por 23 dias, um médico de Bagdá também a anotou; da Europa, nenhuma linha aceita

Nebulosa do Caranguejo, na constelação de Touro

A Nebulosa do Caranguejo, resto da estrela de 1054

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: China e Bagdá, 1054.

Registro: 23 dias de luz diurna.

Anomalia: silêncio europeu.

Em 4 de julho de 1054, a corte da dinastia Song anotou em Kaifeng, na China, uma estrela nova, e o registro guardado na compilação Song huiyao (Documentos Essenciais da Dinastia Song) diz que ela brilhou com o Sol alto por 23 dias. Na Europa do mesmo ano, segundo o catálogo Historical Supernovae and their Remnants, de F. Richard Stephenson e David Green, publicado pela Oxford em 2002, não existe nenhum registro aceito do mesmo céu.

As duas informações vêm de fontes sérias e não combinam. Uma luz forte o bastante para aparecer ao meio-dia, por mais de três semanas, ficou fora de todas as crônicas latinas que os historiadores conseguem datar com segurança.

Os chineses não foram os únicos a ver. Um médico cristão de Bagdá, Ibn Butlan, escreveu sobre uma estrela espetacular surgida no ano 446 do calendário islâmico, que corresponde a 1054 e ao começo de 1055. Na corte do Japão, a mesma aparição entrou numa lista copiada dois séculos depois.

A estrela ficou no céu noturno por quase dois anos. Depois sumiu, e o ponto onde ela brilhava voltou a parecer vazio a olho nu.

Em 1731, o médico e astrônomo inglês John Bevis apontou o telescópio para aquele trecho da constelação de Touro e viu uma mancha de luz difusa. Em 1758, o francês Charles Messier a anotou como primeiro item do catálogo dele, M1. Em 1844, o irlandês William Parsons, terceiro conde de Rosse, desenhou a mancha com filamentos que lembravam patas, e o apelido pegou: Nebulosa do Caranguejo.

Hoje se sabe que a nebulosa é o que sobrou da luz de 1054, uma supernova (a explosão que encerra a vida de uma estrela muito grande). A nuvem de gás ainda se espalha pelo espaço, e no centro dela gira o núcleo esmagado da estrela original.

A explosão está explicada pela física. O que segue sem explicação é o silêncio de um continente inteiro diante dela, num século em que monges anotavam cometas, eclipses e enchentes.

O caso começa pelas palavras que o astrônomo da corte Song entregou ao imperador.

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I  O Registro

A estrela convidada de Kaifeng

Yang Weide, astrônomo-chefe da corte Song, foi quem levou a notícia ao imperador Renzong em 1054. O ofício dele era vigiar o céu e ler cada mudança como recado sobre o governo.

O que o texto diz

A entrada do Song huiyao começa pela data no calendário chinês: primeiro ano da era Zhihe (Harmonia Perfeita), quinto mês, dia jichou (um dos 60 nomes do ciclo chinês de dias).

Depois vem a frase central: “uma estrela convidada apareceu a sudeste de Tianguan, talvez a algumas polegadas”. Estrela convidada (kexing, em chinês) era o nome de qualquer luz nova que surgia num ponto fixo do céu e depois ia embora. Tianguan (Passagem Celeste) é a estrela que hoje se chama Zeta Tauri, na ponta de um chifre do Touro.

Yang Weide descreveu a cor como amarela pálida e leu a aparição como bom presságio: sinal de que o país tinha um governante de grande mérito. A leitura agradou à corte e foi copiada nos arquivos oficiais.

A luz que hoje se estuda como explosão chegou à corte como elogio ao imperador.

Vinte e três dias e 653 noites

Um segundo registro, de abril de 1056, encerra o caso. O Escritório de Astronomia informou que a estrela convidada tinha desaparecido e resumiu: ela foi vista de dia, como Vênus, com raios para todos os lados, de cor branca avermelhada, por 23 dias ao todo.

Somando as noites, a estrela ficou visível a olho nu por 653 dias, segundo a contagem de Stephenson e Green no catálogo de 2002. Para ser vista com o Sol no céu, ela precisou superar Vênus em brilho nas primeiras semanas.

As outras testemunhas

No Japão, o poeta e cortesão Fujiwara no Teika reuniu em 1230, no diário Meigetsuki (Registro da Lua Clara), uma lista de estrelas convidadas antigas tirada dos arquivos da corte. A de 1054 está lá, descrita como tão grande quanto Júpiter.

No mundo islâmico, a testemunha é Ibn Butlan. O relato dele sobreviveu porque o historiador Ibn Abi Usaybia o copiou, no século XIII, na obra Uyun al-Anba (Fontes de Notícias sobre as Classes de Médicos).

Ibn Butlan viu a estrela em Gêmeos, constelação vizinha do Touro, e a ligou a uma epidemia: segundo ele, 14 mil pessoas foram enterradas em Constantinopla no outono daquele ano. Os astrônomos Kenneth Brecher, Elinor Lieber e Alfred Lieber identificaram o trecho como a supernova de 1054 num artigo da revista Nature, em 1978.

Do diário ao telescópio

Em 1921, o sueco Knut Lundmark notou que a posição da estrela convidada caía junto da M1. Em 1942, Nicholas Mayall e Jan Oort mediram a velocidade com que a nuvem se espalha e calcularam que ela começou a crescer uns nove séculos antes, o que aponta para 1054.

Três culturas, três sistemas de escrita, a mesma luz no mesmo trecho do céu. A quarta grande tradição letrada do hemisfério norte, a latina, não deixou linha que os especialistas aceitem.

 

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II  A Pergunta em Aberto

O silêncio dos mosteiros

A Europa de 1054 sabia escrever sobre o céu. Mosteiros beneditinos mantinham anais (listas de acontecimentos organizadas por ano) com eclipses, cometas, enchentes e colheitas ruins, e muitos desses volumes sobreviveram inteiros.

A prova de 1006

Quarenta e oito anos antes, monges europeus anotaram outra supernova. Os Annales Sangallenses maiores (Anais Maiores de São Galo), do mosteiro de São Galo, na atual Suíça, registram em 1006 uma estrela nova de brilho espantoso, visível por três meses no extremo sul do céu.

A estrela de 1006 estava baixa no horizonte suíço, quase rente às montanhas. Mesmo assim entrou no registro. Os monges sabiam ver luz nova e sabiam anotar o que viam.

Os mosteiros que anotaram a estrela de 1006 não deixaram uma palavra aceita sobre a de 1054.

Três explicações

1. O céu nublado. O verão de 1054 pode ter sido chuvoso no norte da Europa, mas nenhum documento da época registra três semanas seguidas de tempo fechado no continente inteiro.

2. O horário. Em julho, a estrela nascia no leste pouco antes do Sol. Era visível de dia, mas só para quem olhasse para aquele lado depois do amanhecer, e os monges marcavam as horas pelas orações, não pelo céu.

3. A política. Em 16 de julho de 1054, doze dias depois da aparição, o cardeal Humberto de Silva Cândida deixou no altar da Hagia Sofia (Santa Sabedoria), em Constantinopla, a bula (carta oficial com selo do papa) que excomungava o patriarca Miguel Cerulário. Foi o começo do Cisma do Oriente (a separação entre a Igreja de Roma e a Igreja grega). Alguns autores sugeriram que um sinal no céu naquele mês seria incômodo demais para os cronistas latinos.

A terceira explicação é a mais citada e a mais fraca. Nenhum texto mostra ordem de silêncio, e a ruptura só pareceu definitiva décadas mais tarde.

O médico em Constantinopla

Um detalhe liga as duas metades do caso. Ibn Butlan esteve em Constantinopla em 1054 e escreveu, a pedido do patriarca Miguel Cerulário, um tratado sobre o pão da missa, um dos temas da briga com Roma.

Um homem que viu a estrela e a anotou circulava na cidade onde os legados (enviados oficiais) do papa discutiam o cisma. Os legados voltaram a Roma, e nenhum relato deles menciona luz no céu.

Quem viu a estrela conviveu com os enviados de Roma, e mesmo assim as crônicas latinas ficaram mudas. Até hoje, nenhum documento explica o motivo, e por enquanto as três explicações seguem como hipóteses sem prova escrita.

 
 

III  O Que Falta Provar

Uma crônica de Bolonha com o ano trocado

A busca por uma testemunha europeia continua, e a candidata mais forte é uma crônica da cidade de Bolonha, na Itália.

A crônica Rampona

A Ystoria Rampona, compilação de notícias da cidade copiada no século XV, traz no ano de 1058 uma frase sobre uma estrela de brilho intenso que entrou no círculo da Lua nova. Em 1999, os astrônomos George Collins, William Claspy e John Martin defenderam, na revista Publications of the Astronomical Society of the Pacific, que a frase descreve a supernova de 1054 com o ano trocado pelo copista.

O mesmo artigo propôs que a explosão começou antes de julho, entre abril e maio, quando a estrela ainda aparecia no céu do anoitecer europeu. A hipótese casaria a frase italiana com o relato de Ibn Butlan, que não diz o mês exato.

Para aceitar a crônica Rampona, é preciso supor que o copista errou o ano e que os chineses viram a estrela semanas depois de ela surgir.

Stephenson e Green rejeitaram a leitura no catálogo de 2002. Para eles, a frase descreve uma conjunção (o encontro aparente de um planeta com a Lua), fenômeno comum nas crônicas, e o ano 1058 não tem motivo para estar errado.

A pintura no penhasco

Fora da Europa, outra candidata está pintada numa rocha. Em Peñasco Blanco, no Cânion do Chaco, no atual Novo México, o povo ancestral pueblo deixou uma mão, uma lua crescente e uma estrela. Em 1955, o fotógrafo William C. Miller, do Observatório Palomar, propôs que duas pinturas parecidas, no norte do Arizona, mostram a supernova junto da Lua; a de Chaco entrou na lista uns 20 anos depois.

Os cálculos de Miller mostram que, na madrugada de 5 de julho de 1054, a Lua minguante passou perto da estrela nova. Nenhuma datação, porém, prova que a pintura é daquele século.

O que decidiria o caso

Duas descobertas encerrariam a discussão:

• Um anal latino datado de 1054, em cópia antiga e confiável, que descreva uma luz nova em Touro ou perto do Sol nascente no verão.

• Um registro de tempo europeu de julho de 1054 que mostre semanas de céu fechado nas regiões dos grandes mosteiros.

Nenhuma das duas apareceu. Milhares de manuscritos medievais seguem sem leitura completa em arquivos de mosteiros e catedrais, e a linha ausente pode estar em qualquer um deles.

O que se sabe é firme: a China contou 23 dias de luz diurna, um médico de Bagdá e um diário japonês confirmam a aparição, e a Nebulosa do Caranguejo marca o ponto exato. No centro dela gira um pulsar (estrela de nêutrons que emite pulsos de rádio), achado em 1968 por David Staelin e Edward Reifenstein no Observatório de Green Bank; a equipe da Universidade Cornell mediu em Arecibo, em 1968, cerca de 30 voltas por segundo.

A Europa viu a estrela e a anotação se perdeu ou ficou com o ano trocado, como sustentam Collins, Claspy e Martin com a crônica Rampona; ou a Europa não a viu, por nuvem, por horário ou por desatenção, como leem Stephenson e Green. As duas leituras usam as pistas acima, e o peso das duas fica com você.

 
 
 
Quiz da edição

Segundo o registro chinês guardado no Song huiyao, por quantos dias a estrela de 1054 foi vista com o Sol ainda alto no céu?

A14 dias
B40 dias
C23 dias
D653 dias

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