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Teotihuacan, a metrópole que não deixou rosto de rei
A cidade passou de 100 mil moradores, e um século de escavação não achou retrato, nome ou túmulo de quem mandava nela
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Pirâmide do Sol, vista da Calçada dos Mortos
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FICHA DO ARQUIVO
Relato: Teotihuacan passou de 100 mil moradores.
Registro: em 1973, René Millon publicou o mapa da cidade inteira.
Anomalia: nenhum retrato, nome ou túmulo de rei foi achado.
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Em 1973, o arqueólogo René Millon, da Universidade de Rochester, publicou o mapa do Teotihuacan Mapping Project e calculou que Teotihuacan, no vale do México, passava de 100 mil moradores entre os anos 400 e 550. Desde 1905, quando Leopoldo Batres começou a escavar a Pirâmide do Sol a mando do governo mexicano, nenhum retrato de governante, nome de rei ou túmulo real apareceu na cidade.
Uma das maiores cidades do planeta naquele século deixou templos, murais e bairros inteiros, e nenhuma cara de quem mandava.
O tamanho se mede a pé. A Calçada dos Mortos, a avenida principal, atravessa a cidade de norte a sul por mais de 2 quilômetros. A Pirâmide do Sol, erguida no século II, tem hoje cerca de 65 metros de altura e ocupa uma base comparável à da Grande Pirâmide do Egito.
O mapa de Millon contou mais de 2 mil conjuntos de apartamentos: casas de pedra com muros altos e pátios internos, onde viviam famílias de oleiros, pedreiros e artesãos da obsidiana (o vidro vulcânico usado em lâminas). Havia bairros de estrangeiros. Num deles, gente vinda de Oaxaca, no sul do México, enterrava os parentes no estilo da terra natal.
Nas paredes, os pintores deixaram deuses, jaguares, sacerdotes em procissão e cenas de água e colheita. As figuras humanas aparecem de perfil, com máscaras e cocares iguais, sem nada que diga quem é quem.
Nem o nome da cidade sobreviveu. Teotihuacan é palavra do náuatle, a língua dos astecas, e costuma ser traduzida como lugar onde os homens viram deuses. Os astecas batizaram as ruínas séculos depois do abandono, quando o lugar já era uma paisagem de montes cobertos de terra.
Quem morou ali escreveu pouco, ou escreveu num sistema que ninguém lê hoje. O que se sabe dos governantes vem de três fontes: o traçado da cidade, os murais e as covas abertas pelos arqueólogos.
O centro queimou no século VI, e as últimas pistas do poder ficaram no que a cidade mostrava de si mesma. A investigação começa pelo mapa que contou os moradores e procurou, sem achar, o palácio de um rei.
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I O Registro
I, O mapa que não achou palácio
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O SÍTIO
A Calçada dos Mortos vista do alto da Pirâmide da Lua, com a Pirâmide do Sol à esquerda, no vale do México.
Foto: Hdlrosa, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
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René Millon começou o levantamento de Teotihuacan em 1962. A equipe fotografou a área do alto, andou o terreno em faixas e recolheu cerâmica da superfície, casa por casa, até cobrir cerca de 20 quilômetros quadrados de cidade.
O resultado saiu em 1973, no livro Urbanization at Teotihuacan, Mexico (Urbanização em Teotihuacan, México). Para Millon, no auge a cidade teria perto de 125 mil habitantes. George Cowgill, da Universidade Estadual do Arizona, revisou os dados no livro Ancient Teotihuacan, de 2015, e trabalhou com um número perto de 100 mil.
A cidade foi planejada. As ruas seguem uma orientação comum, desviada cerca de 15 graus do norte, e até o rio San Juan teve o curso corrigido para acompanhar a grade. Um plano desse tamanho pede alguém que mande, cobre trabalho e decida onde cada bairro fica.
O problema está em quem. Nas cidades maias da mesma época, os reis gravavam o próprio nome e a data de posse em estelas (colunas de pedra esculpidas). Em Palenque, o arqueólogo Alberto Ruz abriu em 1952 o túmulo do rei Pakal, com máscara de jade e inscrições que contam a vida dele.
Os palácios sem dono
Teotihuacan tem prédios grandes o bastante para abrigar governo. A Cidadela, nome dado pelos espanhóis, é um pátio murado que cabe dezenas de milhares de pessoas, com o Templo da Serpente Emplumada ao fundo e dois conjuntos residenciais nas laterais.
Ao norte da Pirâmide do Sol fica Xalla, um complexo de pátios escavado a partir de 1997 pela arqueóloga Linda Manzanilla, da Universidade Nacional Autônoma do México. Manzanilla o interpreta como sede de governo. Nenhuma parede ali traz o nome ou o rosto de quem ocupou o lugar.
Os prédios existem, e nenhum deles tem dono conhecido. |
Os murais reforçam o silêncio. No conjunto de Tepantitla, a pintura chamada de Tlalocan (o paraíso da água, na leitura dos astecas) mostra dezenas de pequenas figuras nadando, brincando e cantando. Nos murais de procissão, sacerdotes aparecem em fila, iguais entre si, sem um que se destaque dos outros.
A historiadora da arte Esther Pasztory, da Universidade Columbia, leu esse padrão como escolha. No livro Teotihuacan: An Experiment in Living, de 1997, ela descreveu uma arte que apaga o indivíduo e põe no centro o grupo, os deuses e a ordem da cidade.
Um nome de governante ligado a Teotihuacan, porém, existe. Ele não está na cidade: foi gravado a mais de mil quilômetros, numa pedra da selva da Guatemala.
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