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A cidade que estava sete quilômetros mar adentro

Localizada em 2000 na baía de Aboukir sob menos de 6 metros de água, com cerca de 70 embarcações afundadas no fundo e só 5% do sítio escavado

Uma bancada de levantamento à noite com um registro de sonar do porto submerso aberto sobre a mesa, um fragmento de estela de granito preto com linhas hieroglíficas em pé, pranchas de madeira encharcada sobre feltro preto, uma carta batimétrica da baía com o traçado da cidade marcado a tinta e tubos de testemunho de sedimento num suporte, sob luz âmbar focal

O porto do Nilo sob seis metros de água

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FICHA DO ARQUIVO

Relato: Heródoto registrou no livro II das Histórias, no século V a.C., um porto e um templo na boca canópica do Nilo, e nenhum levantamento moderno tinha localizado a cidade até 2000.

Registro: a equipe de Franck Goddio, do Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática, mapeou o sítio a 7 quilômetros da costa atual de Aboukir, sob menos de 6 metros de água, e em 2001 recuperou a estela de Nectanebo I, de 380 a.C., que nomeia a cidade como Thonis.

Anomalia: cerca de 70 embarcações afundadas cobrem a área do porto, o solo argiloso cedeu por liquefação por volta de 100 a.C., e cerca de 5% do sítio foi escavado.

Heródoto escreveu no livro II das Histórias, no século V a.C., que existia um porto com templo na boca canópica do Nilo, e que Helena e Páris pararam ali antes da guerra de Troia. Nenhum levantamento moderno localizou essa cidade até o ano 2000, quando a equipe de Franck Goddio, do Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática, a encontrou a 7 quilômetros da costa atual de Aboukir, sob menos de 6 metros de água.

Os dois fatos descrevem o mesmo lugar. O texto grego fala de um porto de entrada com alfândega e santuário; o sonar de varredura lateral e o magnetômetro de ressonância nuclear passados pela baía devolveram cais, canais, blocos de granito e cascos de barco espalhados por vários quilômetros quadrados de fundo raso.

O nome saiu gravado na pedra. Em 2001, a mesma equipe recuperou uma estela de granito quase intacta, cópia do decreto de Nectanebo I de 380 a.C., cuja inscrição manda instalá-la na cidade chamada Thonis pelos egípcios, o mesmo lugar que os gregos registravam como Heracleion.

A profundidade contraria a intuição. O sítio não está num abismo, fica sob cinco a seis metros de água, e o que o manteve invisível por séculos não foi a distância vertical, foi a camada de sedimento do delta cobrindo tudo e a visibilidade quase nula da baía.

O fundo guarda uma frota. As campanhas do instituto contabilizaram cerca de 70 embarcações afundadas na área portuária, entre elas o casco batizado de Barco 17, construído com pranchas encaixadas por espigas, a técnica que Heródoto descreveu no mesmo livro II ao falar da baris egípcia.

A cidade também não afundou de uma vez só. As análises de sedimento publicadas pela equipe de Goddio descrevem argila saturada e instável, sobrecarregada por construções pesadas de pedra, que perdeu resistência e cedeu por liquefação por volta de 100 a.C.

E quase tudo continua enterrado. Depois de mais de vinte anos de campanhas, o próprio instituto estima que cerca de 5% do sítio foi escavado.

O registro do dia começa pelo que o sonar mapeou e pelo que a estela de granito afirma, antes da parte que o sedimento ainda segura.

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I  O Registro

I, Sete quilômetros de água sobre um porto de pedra

A busca não começou pela cidade. Goddio e o Instituto Europeu de Arqueologia Subaquática trabalhavam desde 1996 no mapeamento sistemático da baía de Aboukir, a leste de Alexandria, atrás do porto submerso de Canopo e dos vestígios da frota francesa afundada em 1798, e o levantamento cobriu quadrado por quadrado uma área de dezenas de quilômetros quadrados.

O método foi geofísico antes de ser arqueológico. Sonar de varredura lateral para o relevo do fundo, perfilador sub-bottom para as camadas abaixo do lodo e magnetômetro de ressonância magnética nuclear para localizar anomalias enterradas, com posicionamento por satélite diferencial: só depois de a anomalia aparecer no gráfico é que um mergulhador descia para abrir uma sondagem no sedimento.

O achado de 2000 mudou a escala do trabalho. As anomalias desenharam um traçado urbano com bacia portuária, canais navegáveis, muros de cais e plataformas, e as sondagens devolveram blocos de calcário e granito, âncoras de pedra e cerâmica, tudo sob uma capa de argila e areia num fundo de cinco a seis metros.

A estela fechou a identificação em 2001. O bloco de granito preto, com quase dois metros, repete o decreto de Nectanebo I sobre a taxação de bens gregos, e a linha final ordena que a cópia seja erguida em Thonis, na boca do mar, o que amarrou o nome egípcio ao sítio e ao nome grego que a literatura antiga usava.

Na costa há uma boca do Nilo chamada Canópica, e nela um templo de Héracles, onde qualquer servo de qualquer homem que ali se refugie e receba as marcas sagradas não pode mais ser tocado.

Heródoto, Histórias, Livro II, século V a.C.

O inventário recuperado descreve uma cidade de porte. Estátuas colossais de mais de cinco metros em granito rosa, entre elas uma representação do deus Hapi e um par real ptolomaico, o santuário de Amon-Gereb, centenas de âncoras, moedas de ouro e chumbo, pesos de bronze da alfândega e mais de setecentos objetos de culto depositados em água.

O Naos das Décadas veio em pedaços separados por dois séculos. A parte superior desse santuário monolítico de granito, com o calendário astronômico dividido em trinta e seis décadas, chegou ao Louvre no século XIX, e a base foi encontrada por Goddio no fundo da baía em 1999 e 2001, o que permitiu remontar o conjunto pela primeira vez.

A função da cidade estava no traçado. Antes da fundação de Alexandria em 331 a.C., a boca canópica era a porta de entrada obrigatória para navios estrangeiros no Egito, e Thonis-Heracleion concentrava a cobrança de impostos, a inspeção de carga e o culto que legitimava a passagem.

 

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II  A Pergunta em Aberto

II, Por que o chão de Thonis virou líquido

O afundamento não tem uma causa só na literatura. As publicações da equipe de Goddio e do Centro de Arqueologia Marítima da Universidade de Oxford descrevem uma combinação de subida relativa do nível do mar, subsidência do delta, sismos e liquefação do solo argiloso, com efeitos somados ao longo de séculos.

A liquefação é o processo mais documentado. Argila saturada de água, quando sacudida por um tremor ou sobrecarregada por peso concentrado, perde a fricção entre os grãos e passa a se comportar como fluido, e construções pesadas afundam vários metros no próprio terreno em minutos.

A datação aponta para o fim do século II a.C. Os trabalhos da equipe situam por volta de 100 a.C. um evento que derrubou a parte central da cidade, com o templo de Amon-Gereb desabando sobre os canais, e a estratigrafia mostra estruturas soterradas ainda em pé, tombadas no lugar em vez de arrastadas.

O peso construído entra na conta. Os templos e as estátuas colossais concentravam centenas de toneladas de granito importado sobre uma ilha formada por sedimento fluvial recente, um solo que nunca teve capacidade de suporte para aquilo, e a ocupação foi crescendo em cima da mesma base mole.

A subida do mar acrescentou a lâmina de água. As reconstruções da geografia do delta indicam que a região perdeu altura relativa ao mar de forma contínua durante a Antiguidade tardia, e o que a liquefação derrubou depois ficou coberto pela água que avançou.

A cidade não acabou naquele dia. Achados de moedas e cerâmica indicam ocupação reduzida no local até o período bizantino, com parte da população deslocada para setores mais altos do mesmo arquipélago, e as fontes escritas registram a decadência do porto depois que Alexandria assumiu o tráfego marítimo.

O que falta é a sequência exata. Um evento único, dois eventos separados por décadas, um processo lento pontuado por colapsos localizados: cada leitura explica parte do que o fundo mostra, e o sedimento revolvido pelas correntes da baía não guarda uma cronologia limpa em todos os setores.

 
 

III  O Que Falta Provar

III, Os noventa e cinco por cento que seguem no sedimento

A primeira lacuna é de área. Cerca de 5% do sítio foi escavado, segundo o instituto que trabalha nele desde 2000, e a maior parte do traçado urbano existe hoje apenas como anomalia magnética num gráfico, sem nenhuma escavação que diga o que há debaixo.

A segunda são as embarcações. As cerca de 70 estruturas de casco identificadas na bacia portuária formam a maior concentração de barcos antigos já registrada num único lugar, e apenas uma pequena parte foi escavada e datada, o que deixa em aberto se afundaram num evento comum ou ao longo de séculos de uso do porto.

A terceira é a datação do colapso central. As idades disponíveis vêm de material associado, cerâmica e moedas em camadas revolvidas, e um programa de sondagens geotécnicas com datação por radiocarbono e luminescência nos horizontes liquefeitos diria se a queda foi um episódio ou uma série.

A quarta é o interior do santuário de Amon-Gereb. O templo desabou sobre si mesmo, e o desentulhamento controlado do núcleo, sob lodo e blocos de granito, é o único caminho para saber se os depósitos de culto e os arquivos administrativos do porto continuam no lugar onde caíram.

A quinta é a relação com Canopo. As duas cidades submersas estão a poucos quilômetros uma da outra na mesma baía, e datar com precisão o afundamento de cada uma mostraria se responderam ao mesmo processo geológico ou se cada setor do delta cedeu no seu próprio tempo.

O caso tem duas leituras que o material sustenta por igual. Ou o fim de Thonis-Heracleion foi geológico, um solo condenado desde a fundação que a liquefação derrubou por volta de 100 a.C., e a cidade teria caído com ou sem Alexandria; ou foi econômico, com o porto esvaziado pela concorrência do novo entreposto e as ruínas apenas afundando devagar num lugar que já não interessava a ninguém.

A escolha decide o que ainda dá para procurar ali. Aceitar a leitura geológica é esperar uma cidade viva soterrada de uma vez, com arquivos e depósitos no lugar em que ficaram; aceitar a leitura econômica é esperar um sítio esvaziado antes de submergir, com o que valia levado embora e o resto largado. As duas contas estão descritas acima.

 
 
 

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