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As 20 mil peças de ouro sem nome de Tillya Tepe

Seis sepulturas no norte do Afeganistão misturam arte grega, indiana e da estepe, e nenhuma diz quem estava enterrado

Morro de barro na planície do norte do Afeganistão

O morro de Tillya Tepe, perto de Sheberghan

▼

FICHA DO ARQUIVO

Caso: o ouro de Tillya Tepe.

Local: Jowzjan, Afeganistão.

Anomalia: 20 mil peças, nenhum nome.

A missão soviético-afegã de Viktor Sarianidi tirou cerca de 20.600 peças de ouro de seis sepulturas de Tillya Tepe, no norte do Afeganistão, entre novembro de 1978 e fevereiro de 1979. Em nenhuma das seis apareceu lápide, selo ou linha escrita com o nome do morto, segundo o próprio Sarianidi no livro The Golden Hoard of Bactria (O Tesouro de Ouro da Báctria), de 1985.

Ouro em quantidade de tesouro real, e nenhum rei identificado.

Tillya Tepe quer dizer colina de ouro em uzbeque. O morro fica a poucos quilômetros da cidade de Sheberghan, na planície da antiga Báctria (a região entre o rio Amu Dária e as montanhas do Hindu Kush). Visto de longe, parece só mais um monte de terra na planície.

Sarianidi cavava ali desde 1969 atrás de outra história: um templo de tijolo cru da Idade do Ferro, erguido mais de mil anos antes das sepulturas. Os túmulos estavam enfiados nas ruínas desse templo, cavados no barro de um prédio já abandonado.

Cada morto estava num caixão de madeira, vestido com roupa bordada de centenas de plaquinhas de ouro costuradas. Quando o pano apodreceu, as plaquinhas caíram sobre os ossos e deixaram no chão o desenho da roupa.

Nas joias, uma deusa grega com asas usa na testa o ponto vermelho das mulheres da Índia. Um medalhão traz letras de um alfabeto indiano. Uma coroa de folhas de ouro se desmonta em peças, para caber na bagagem de quem vive a cavalo.

Três mundos na mesma cova, e nenhum deles assinou o enterro.

A escavação parou em fevereiro de 1979. Em dezembro daquele ano, o exército soviético entrou no Afeganistão, e Sarianidi não voltou ao morro.

O ouro foi para Cabul e sumiu de vista por quase 25 anos. O registro começa pelo que a equipe anotou cova por cova, antes da guerra fechar o sítio.

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I  O Registro

Seis covas numa colina de barro

O SÍTIO

O morro de Tillya Tepe, perto de Sheberghan, no norte do Afeganistão, onde seis sepulturas foram abertas em 1978 e 1979.

O morro de Tillya Tepe, perto de Sheberghan, no norte do Afeganistão, onde seis sepulturas foram abertas em 1978 e 1979.

Foto: World Imaging, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

As sepulturas de Tillya Tepe entraram no registro arqueológico em novembro de 1978, quando a equipe de Viktor Sarianidi achou a primeira ao abrir uma vala no alto do morro. Em três meses vieram mais cinco, numeradas de 1 a 6 na ordem em que apareceram.

A ordem das covas

Cinco covas guardavam mulheres, segundo o relatório de Sarianidi. Uma só guardava um homem, a de número 4, no meio do grupo.

As mulheres usavam diadema, brincos, colares, tornozeleiras e roupa coberta de placas de ouro. Na cova 6, a mais rica, estava a coroa de folhas desmontável, feita de cinco árvores de ouro presas numa faixa.

Na cova 2 saíram os pingentes do chamado Senhor dos Dragões, uma figura coroada que segura pelo pescoço dois animais com corpo de dragão. O estilo vem da arte da estepe, a dos povos nômades da Ásia Central.

Na cova 6 saíram também as presilhas da Afrodite de asas. Ela é grega no corpo e no penteado, e traz entre as sobrancelhas o bindi (o ponto na testa usado na Índia).

O homem da cova 4

O homem foi enterrado com armas: um punhal com bainha de ouro, um arco e um cinturão de medalhões. A cabeça repousava sobre um prato de ouro, e em volta havia peças vindas de lugares distantes entre si.

Uma delas é um medalhão indiano de ouro. Num lado, um homem empurra uma roda, e a inscrição em kharoshthi (um alfabeto do noroeste da Índia antiga) diz “aquele que põe em movimento a roda da lei”. No verso, um leão aparece com a frase “o leão que afastou o medo”.

Os estudiosos leem a cena como uma das imagens budistas mais antigas conhecidas, porque a roda da lei é o símbolo do ensino do Buda.

A única data firme veio de Roma, numa moeda de ouro com a cara de Tibério.

Na cova 3 apareceu uma moeda de ouro de Tibério, imperador de Roma entre os anos 14 e 37 depois de Cristo. Ela mostra que aquele enterro aconteceu depois do começo do reinado dele. As outras covas ganharam data por estilo e comparação, e ficam entre o século I antes de Cristo e o século I depois de Cristo.

O cofre do banco

Depois da invasão soviética, as peças ficaram no Museu Nacional do Afeganistão, em Cabul. Em 1989, com a guerra civil chegando à capital, funcionários do museu levaram o ouro para um cofre do Banco Central embaixo do palácio presidencial.

Os guardiões das chaves não contaram a ninguém onde estava o tesouro, nem ao Talibã, que governou Cabul de 1996 a 2001. Por anos correu o boato de que o ouro tinha sido derretido ou vendido.

Em 2003, o governo afegão anunciou o cofre intacto. Em 2004, o arqueólogo Fredrik Hiebert, da National Geographic, fez o inventário com a equipe afegã e conferiu peça por peça com as fichas de Sarianidi.

O ouro voltou inteiro, com as listas, as fotos e os desenhos da escavação. O nome de quem usou aquele ouro nunca esteve em nenhuma ficha.

 

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II  A Pergunta em Aberto

Quem mandava na Báctria

Os seis mortos de Tillya Tepe pertenciam a um grupo com acesso ao ouro de três civilizações. Saber quem eram depende de saber quem governava a Báctria no século I antes de Cristo, um dos períodos menos documentados da Ásia Central.

Até o século II antes de Cristo, a Báctria tinha reis gregos, herdeiros das conquistas de Alexandre, o Grande. Por volta de 130 antes de Cristo, povos nômades vindos do norte tomaram a região, e os reis gregos recuaram para o sul do Hindu Kush.

Os iuechis de Sima Qian

O historiador chinês Sima Qian escreveu nas Memórias Históricas, por volta de 94 antes de Cristo, que os iuechis (um povo nômade expulso das fronteiras da China) cruzaram o rio Oxus e dominaram Daxia, o nome chinês da Báctria. A notícia veio do enviado Zhang Qian, que visitou os iuechis por volta de 128 antes de Cristo.

Sarianidi defendeu que os mortos de Tillya Tepe eram chefes iuechis ou gente ligada a eles. A coroa desmontável e o arco do homem da cova 4 combinam com um povo que se mudava a cavalo.

O obstáculo é a escrita. Os iuechis da época não deixaram textos próprios, e nada nas covas pode ser comparado com um nome de chefe anotado pelos chineses.

Os sacas da estepe

Outra leitura aponta os sacas (os citas da Ásia Central, nômades de língua iraniana), que também desceram sobre a Báctria e o noroeste da Índia no mesmo período.

As placas de roupa, o gosto por animais retorcidos e o costume de enterrar o chefe com armas aparecem em túmulos sacas do Cazaquistão, como o kurgan (o monte funerário da estepe) de Issyk, aberto em 1969 pelo arqueólogo Kemal Akishev.

Os dois povos se misturaram na região, e o estilo das peças não basta para separar um do outro.

Arte não serve de passaporte: um chefe iuechi podia usar joia de ourives grego, e uma princesa saca podia comprar medalhão indiano.

Os pais do Império Cuchana

No século I depois de Cristo, um ramo dos iuechis fundou o Império Cuchana, que governou da Ásia Central ao norte da Índia e apoiou o budismo. O primeiro rei de nome conhecido, Kujula Kadfises, cunhou moedas com legenda em grego e em kharoshthi.

Se as covas forem dos primeiros anos do século I depois de Cristo, os mortos podem ser parentes dos fundadores desse império. O medalhão budista da cova 4 e a mistura grega e indiana das joias combinam com a arte cuchana posterior.

Nenhuma moeda de Kujula Kadfises consta do inventário publicado das covas. Sem ela, a ligação com a família real cuchana fica no campo do estilo, sem documento.

 
 

III  O Que Falta Provar

Os ossos sem estudo

Tillya Tepe deu ouro, data aproximada e estilo. Para ligar os seis mortos a um povo e a um nome, faltam três tipos de prova, e cada uma depende de material que a guerra espalhou.

O que se sabe dos corpos

A equipe de Sarianidi identificou o sexo dos mortos no campo, pelo esqueleto e pelo enxoval. As mulheres eram jovens e adultas, e o homem era um adulto enterrado como guerreiro.

Não há estudo de DNA publicado desses esqueletos. Sem ele, ninguém sabe se as cinco mulheres eram parentes do homem, esposas vindas de outros povos ou uma linhagem à parte.

As publicações sobre o tesouro tratam do ouro. O paradeiro dos ossos depois de 1979 não consta nelas.

O ouro dormiu salvo num cofre, e os ossos, os únicos capazes de contar o parentesco, ficaram fora da conta.

O sítio depois da guerra

Segundo o próprio Sarianidi, a equipe deixou ao menos mais uma sepultura identificada e não aberta quando saiu em 1979. Nos anos de guerra, saqueadores cavaram o morro, e peças no estilo de Tillya Tepe apareceram no mercado de antiguidades.

O conteúdo dessa cova, e se ela trazia uma inscrição, ficou desconhecido: o saque destruiu o contexto, e nenhum objeto vendido pode ser ligado a ela com segurança.

O que uma prova exigiria

1. Extrair DNA dos esqueletos, se ainda existirem, e comparar com restos de túmulos iuechis e sacas já datados.

2. Datar por radiocarbono a madeira dos caixões e os restos de tecido, para fixar a ordem dos seis enterros.

3. Achar na Báctria uma inscrição do período com o nome de um chefe nômade, ao lado de um objeto igual aos de Tillya Tepe.

Uma família de chefes iuechis, avós dos reis cuchanas, ou um clã saca rico em ouro feito por ourives de fora. As peças servem às duas leituras, e a escolha fica com quem lê.

 
 
 
Quiz da edição

Qual sepultura de Tillya Tepe guardava a moeda de ouro romana com a cara do imperador Tibério, a única data firme do conjunto?

ACova 1
BCova 3
CCova 4
DCova 6

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